A estenose aterosclerótica da artéria renal (EAAR) representa uma das principais causas de hipertensão (HTA) secundária e se associa com um maior risco de deterioração renal e eventos cardiovasculares. No entanto, os estudos randomizados contemporâneos não conseguiram demonstrar um benefício claro do implante sistemático de stents na artéria renal em comparação com o tratamento médico ótimo.

Uma das principais críticas a ditos estudos foi a inclusão de pacientes com estenoses angiograficamente significativas, mas provavelmente não funcionais. Em tal contexto, a avaliação fisiológica por meio de FFR, amplamente validada no território coronariano, surge como uma estratégia potencial para a correta identificação de lesões funcionalmente significativas.
O estudo FAIR, publicado recentemente no European Heart Journal, aborda este interrogante ao comparar uma estratégia de revascularização renal com implante de stent guiada por FFR versus uma estratégia padrão guiada unicamente por angiografia em pacientes com EAAR e HTA não controlada.
Foram incluídos 101 pacientes com estenose ≥ 50% em ao menos uma artéria renal principal (diâmetro ≥ 4 mm) e HTA não controlada apesar do uso de ≥ 2 fármacos anti-hipertensivos. Os pacientes foram randomizados 1:1 a uma estratégia guiada por angiografia (implante de stent independentemente do valor da FFR) ou a uma estratégia guiada por FFR (implante de stent com FFR < 0,80). A hiperemia renal foi induzida por meio de dopamina injetada seletivamente.
Os desfechos primários foram a mudança percentual na pressão sistólica média diurna (PSMD) medida por monitoramento ambulatorial e a mudança no índice composto de medicação anti-hipertensiva (ICMAH) em 3 meses.
Não foram observadas diferenças entre as duas estratégias na redução percentual da PSMD (4% vs. 4%; p = 0,97) nem do ICMAH (0% vs. 1%; p = 0.33). A taxa de implante de stents foi significativamente menor (54% menos) no grupo guiado por FFR (46,0% vs. 100,0%; p < 0,01).
Nos pacientes tratados com stent que apresentaram FFR < 0,80, comparados com os que apresentavam FFR ≥ 0,80 sem implante de stent, observou-se uma redução ajustada da PSMD de 6,2 mmHg (IC de 95%: 0,6-11,9; p = 0,04) e uma diminuição do ICMAH de 3,1 (IC de 95%: 1.5–4.7; p < 0,01).
A correlação entre a porcentagem de estenose angiográfica e a FFR foi baixa (r = −0,21; p = 0,17), o que reflete a limitada capacidade da angiografia para definir a relevância funcional da lesão. Segundo a análise ROC, foi estabelecida como ponto de corte ótimo uma FFR de 0,78 para predizer uma melhora significa da tensão arterial (AUC 0,78).
Conclusões:
O estudo FAIR evidenciou que uma estratégia guiada por FFR na estenose aterosclerótica da artéria renal reduz significativamente o número de stents implantados sem comprometer o controle da pressão arterial e sugere um benefício clínico do implante de stent nos pacientes com FFR < 0,80. Embora se trate de um estudo piloto, de tamanho reduzido e seguimento curto, seus resultados respaldam a incorporação de critérios funcionais na tomada de decisões na EAAR.
Título original: Fractional flow reserve-guided renal artery stenting in atherosclerotic renovascular hypertension: the FAIR randomized trial.
Referência: Li Y, Zheng J, Lu C, Fan F, Liu Z, Liu S, Yi T, Zhang L, Weng H, Wang B, Liu X, Zhou H, Ma D, Jia Z, Xiang L, Yang R, Shi D, Chen H, Xu L, Liu C, Kario K, Zhang Y, Li J. Fractional flow reserve-guided renal artery stenting in atherosclerotic renovascular hypertension: the FAIR randomized trial. Eur Heart J. 2026 Feb 11;47(6):761-769. doi: 10.1093/eurheartj/ehaf746. PMID: 41056188.
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