Oclusão de apêndice atrial esquerdo e sangramento precoce

A oclusão percutânea do apêndice atrial esquerdo (Left Atrial Appendage Occlusion, LAAO) é uma alternativa à anticoagulação oral crônica em pacientes com fibrilação atrial não valvar. Ao isolar o apêndice atrial esquerdo é possível prevenir a migração de trombos associados a fibrilação atrial, que costuma se localizar nessa região. Contudo, ao tratar-se de um dispositivo externo, existe a possibilidade de formação de trombos in sito (thrombus device-related, DRT), o que justifica a necessidade de um regime antitrombótico intensivo durante a fase de endotelização. 

Essa fase inicial é crítica, especialmente em pacientes com risco muito alto ou proibitivo de sangramento. O objetivo deste estudo, apresentado por Mesnier et al, foi avaliar a incidência, os preditores e as consequências clínicas do sangramento precoce não relacionado com o procedimento.  

Entre 2009 e 2021, foram incluídos pacientes submetidos a LAAO em nove centros da Europa e do Canadá. Os eventos de sangramento foram classificados em: sangramentos com risco de vida, sangramentos maiores ou sangramentos menores. Foram definidos como sangramentos maiores aqueles que envolviam sangramentos fatais, em órgãos críticos, que causavam choque hipovolêmico ou uma queda de hemoglobina de ao mentos 3 g/dl ou que requeriam mais de 2 unidades de glóbulos vermelhos. Os sangramentos foram considerados precoces quando ocorriam dentro dos primeiros 3 meses pós-procedimento. 

O desfecho primário (DP) foi a ocorrência de sangramento precoce não relacionado com o procedimento. O desfecho secundário (DS) incluiu sangramento maior precoce, mortalidade por todas as causas, DRT, acidente vascular cerebral isquêmico e doença cardioembólica periférica. A DRT foi definida como a presença de trombo aderido ao lado esquerdo do dispositivo, detectado mediante tomografia ou ecocardiografia transesofágica. 

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Foram incluídos 1649 pacientes, tendo sido todos submetidos a LAAO. O sangramento precoce ocorreu em 7,3% dos casos, dentre os quais 4,2% foram classificados como sangramento maior, representando 57% de todos os eventos de sangramento. 

Os pacientes que experimentaram sangramentos precoces tendiam a ser de maior idade (77,5 ± 7,3 anos vs. 75,8 ± 8,3 anos; p = 0,03), apresentavam um maior grau de insuficiência renal (50,4% [61/121] vs. 36,8% [562/1528]; p = 0,003), antecedentes de doença coronariana (46,3% [56/121] vs. 32,2% [492/1528]; p = 0,002), episódios prévios de insuficiência cardíaca ou algum tipo de sangramento (94,2% [114/121] vs. 81,3% [1242/1528]; p < 0,001), sendo o mais significativo o antecedente de sangramento digestivo (61,2% [74/121] vs. 34,4% [526/1528]; p < 0,001).

No modelo multivariado, os fatores associados a um maior risco de sangramento precoce pós-procedimento foram o uso de terapia antiplaquetária dual (DAPT) (aHR: 1,61; 95% CI: 1,12-2,33; p = 0,01), a ocorrência de um sangramento digestivo prévio (aHR: 2,15; 95% CI: 1,38-3,35; p < 0,001), e sangramentos em outros lugares (aHR: 2,33; 95% CI: 1,34-4,05; p < 0,001).

Leia também: Estudo EMPIRE: Pode haver proteção microvascular na angioplastia coronariana conforme a técnica implante de stent?

Após um seguimento médio de 2,3 anos, 33,3% dos pacientes faleceram, com 50,3% dessas mortes atribuídas a causas vasculares. O sangramento precoce não relacionado com o procedimento se associou independentemente a um aumento da mortalidade por todas as causas (aHR: 1,53; 95% CI: 1,15-2,06; p < 0,001).

Conclusões

Segundo os resultados observados nos nove centros estudados, o sangramento ocorreu em 7,3% dos casos, sendo o uso de DAPT o único fator modificável. Além disso, a ocorrência de sangramento diminuiu significativamente a sobrevivência dos pacientes incluídos no estudo. 

Título Original: Early Nonprocedural Bleeding After Left Atrial Appendage Occlusion.

Referência: Mesnier, J, Cruz-González, I, Guedeney, P. et al. Early Nonprocedural Bleeding After Left Atrial Appendage Occlusion. J Am Coll Cardiol Intv. 2024 Aug, 17 (15) 1765–1776. https://doi.org/10.1016/j.jcin.2024.05.032.


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Dr. Omar Tupayachi
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