A hiperglicemia na admissão, um risco excessivo durante o infarto

Referência:  Planer e colaboradores. International Journal of Cardiology 2012 (no prelo)

O prognóstico dos pacientes durante um infarto agudo do miocárdio com supradesnível do ST (STEMI) melhorou significativamente, principalmente como resultado da terapia de reperfusão. Apesar destes avanços, os pacientes com diabetes mellitus (DM) são um grupo de alto risco no curto e longo prazos em comparação com pacientes sem DM. Estudos epidemiológicos constataram um aumento de complicações micro e macrovasculares com níveis de glicemia inferiores aos definidos para o diagnóstico de DM (“intolerância a glicose”). Novos estudos mostram que dos pacientes sem diagnóstico de DM que são internados com hiperglicemia com infarto agudo do miocárdio, 40% eram intolerantes à glicose e apenas 25% têm DM não diagnosticada.

A hiperglicemia na internação está associada a uma maior morbi-mortalidade no acompanhamento em curto prazo, assim como no acompanhamento remoto de pacientes sem DM. No entanto, a maioria das informações sobre o seu valor preditivo é derivado de estudos da época trombolítica, sendo que os dados disponíveis em pacientes com IAMST são mais limitados. Além disso, não se sabe se existe um valor de corte de glicemia preditor de eventos cardíacos maiores em pacientes com IAMST.

Uma sub-análise recente (n=3400 pacientes, 566 DM) do estudo randomizado HORIZON-AMI avaliou a capacidade prognóstica da glicemia basal anterior a uma angioplastia primária em pacientes com IAMST. Os autores estratificaram os pacientes em tercilos de acordo com o nível de glicemia basal. A média de glicemia da população total foi 138.0 mg/dl [interquartilos 115.4, 171.0]. A mortalidade ajustada após 30 dias foi superior no tercilo superior de glicemia (risco relativo [95% intervalo de confiança]=3.53 [1.89, 6.60], p<0.0001); tanto em pacientes DM (4.40 [2.04, 9.50], p=0.0002) como não DM (3.33 [1.16, 9.55], p=0.03). O valor de corte de glicemia para predizer mortalidade após 30 dias foi de 169 mg/dl (Curva de ROC=0,69), 149 mg/dl para não DM (curva de ROC=0,77) e 231 mg/dl para DM (AUC=0.69). Além disso, a hiperglicemia basal foi um preditor independente de mortalidade após três anos (1.93 [1.35, 2.76], P=0.0003), tanto em DM (2.65 [1.28, 5.47], P=0.008) como não DM (1.58 [1.05, 2.36], P=0.03). Conclusão: Em pacientes com IAMST encaminhados a angioplastia primária, a presença de hiperglicemia na admissão representa um preditor independente de mortalidade em curto e longo prazos em pacientes com e sem DM.

Comentário: Este estudo retrospectivo é o primeiro a fornecer os valores de corte de glicemia jejum preditores de mortalidade em curto e longo prazos. No entanto, é desconhecida a utilidade destes valores de corte para orientar a estratégia hipoglicêmica. Sem dúvida, incitam hipóteses e futuros estudos randomizados poderiam confirmar o seu papel durante o tratamento hipoglicêmico em pacientes atendidos com um IAMST.

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