Estenose aórtica com gradientes elevados e área >1: apenas o acompanhamento é a melhor opção?

A definição da severidade da estenose aórtica (EAo) se baseia nos parâmetros obtidos mediante Doppler, com pontos de corte estabelecidos há muito tempo que incluem uma velocidade pico (VP) ≥ 4 m/s, um gradiente médio (GM) ≥ 40 mmHg e uma área valvar (AVA) ≤ 1 cm². No entanto, existem discrepâncias com os mencionados valores em até 30-40% dos casos, o que deu lugar a diferentes perfis clínicos. 

angulación aórtica post TAVR

Um dos fenótipos discrepantes corresponde a pacientes com gradientes elevados (AG) e uma AVA > 1 cm². As diretrizes de prática clínica abordaram pouco seu manejo e prognóstico. O objetivo do estudo de Ito et al. foi pesquisar as características clínicas e hemodinâmicas desse grupo e comparar sua mortalidade com a de outros subtipos de EAo. 

O estudo foi realizado de maneira retrospectiva utilizando a base de dados ecocardiográfica da Mayo Clinic (Minnesota, EUA). Foram incluídos pacientes com diagnóstico de EAo, classificados conforme a AVA, a VP e o GM em quatro grupos. Foram excluídos pacientes com cirurgia valvar prévia, obstrução do trato de saída do ventrículo esquerdo, insuficiência mitral ou aórtica ou estenose mitral. O objetivo primário foi a mortalidade por qualquer causa. 

Foram compilados dados de 3209 pacientes, cujas características hemodinâmicas se distribuíram da seguinte maneira: 7,2% corresponderam ao fenótipo AG-AVA > 1, 45,9% ao fenótipo AG-AVA ≤ 1, 14,3% ao fenótipo de baixo gradiente com AVA ≤ 1 (BG-AVA ≤ 1), e 32,6% a EAo moderada.

A idade média dos pacientes com AG-AVA > 1 foi de 70,2 ± 12 anos, sendo este grupo mais jovem do que os outros subtipos (P < 0,01). Além disso, apresentaram uma maior prevalência de sexo masculino (85,7%), maior superfície corporal e índice de massa corporal (IMC) e uma maior incidência de valva aórtica bicúspide (39,6%). Tinham menos comorbidades e níveis mais baixos de peptídeo natriurético tipo B (BNP). Os valores de VP e GM foram menores do que os do fenótipo AVA ≤ 1 (P < 0,01), ao passo que o volume sistólico (SV) de 115,0 ± 19 mL e seu valor indexado (SV index) de 54,8 ± 10,5 mL/m² foram mais altos.

Leia também: Registro SCAAR: Angioplastia coronariana em pontes venosas.

Durante um acompanhamento de 944 dias, foram registradas 1523 mortes (47,5%). O fenótipo AG-AVA > 1 apresentou uma taxa de mortalidade em 5 anos de 38,9% e em 8 anos de 59,6%. Após ajustar por idade, observou-se que a mortalidade nesse grupo foi similar à da EAo moderada, mas menor do que a do fenótipo BG-AVA ≤ 1 (HR: 1,9 [IC 95%: 1,4-2,4]; P < 0,01).

No tocante à substituição valvar aórtica (AVR), realizada principalmente mediante cirurgia (com 12,9% mediante TAVR), observou-se que 67,4% dos pacientes com AG-AVA > 1 foram tratados versus 69% dos AG-AVA ≤ 1, 32,8% dos BG-AVA ≤ 1 e 34,7% dos pacientes com EAo moderada. Ao comparar a mortalidade nos pacientes que foram submetidos a AVR, evidenciou-se que esta foi maior nos pacientes com AVA ≤ 1, tanto no grupo AG (HR: 1,5 [IC 95%: 1,1-2,0]; P = 0,03) quanto no grupo com BG (HR: 2,4 [IC 95%: 1,6-3,5]; P < 0,001).

O índice de mortalidade para os pacientes com AG-AVA > 1 que foram submetidos a AVR foi superior ao de una população controle equiparada, mas significativamente menor do que o observado no grupo com AG-AVA > 1 que não foram submetidos a cirurgia (índice de mortalidade 8,2 [IC 95%: 5,9-11,2]).

Conclusões

Nesta coorte de pacientes com EAo, os indivíduos com gradientes elevados e área valvar > 1 cm² se caracterizaram por serem mais jovens e terem menos comorbidades em comparação com outros fenótipos. Apresentaram uma melhor sobrevivência, salvo em comparação com uma população equiparada. A substituição valvar mostrou um benefício na sobrevivência em 8 anos em comparação com os não tratados, o que sugere um impacto positivo do tratamento cirúrgico nesse grupo específico. 

Título Original: High-Gradient Aortic Stenosis With Valve Area >1.0 cm2 The “Forgotten” Discordant Hemodynamic Phenotype.

Referência: Ito S, Oh JK, Michelena HI, Egbe AC, Connolly HM, Pellikka PA, Nkomo VT, Lewis BR, Miranda WR. High-Gradient Aortic Stenosis With Valve Area >1.0 cm2: The “Forgotten” Discordant Hemodynamic Phenotype. JACC Cardiovasc Imaging. 2024 Sep 5:S1936-878X(24)00315-2. doi: 10.1016/j.jcmg.2024.07.025. Epub ahead of print. PMID: 39297851.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Dr. Omar Tupayachi
Dr. Omar Tupayachi
Membro do Conselho Editorial do solaci.org

Mais artigos deste autor

Bloqueio do ramo esquerdo após o TAVI, qual é o seu impacto?

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. O bloqueio do ramo esquerdo (BCRE) é uma complicação frequente após o implante percutâneo da valva aórtica (TAVI), que...

Análise prospectiva da viabilidade do sistema PASCAL para a reparação mitral transcateter: registro OneForAll

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez A reparação mitral transcateter borda a bora (M-TEER) é uma opção eficaz para pacientes com insuficiência mitral severa e...

Experiencia Multicêntrica com Ecocardiografia Intracardíaca 3D para Guiar Procedimentos Cardíacos Intervencionistas

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. As técnicas de imagem desempenham um papel crucial nos procedimentos cardíacos intervencionistas. A ecocardiografia intracardíaca (ICE) se apresenta como...

Estudo histopatológico das próteses aórticas transcateter autoexpansíveis e aumento da espessura valvar com hipoatenuação

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. Apesar de contar com dados de acompanhamento de longo prazo sobre o implante percutâneo da valva aórtica (TAVI), a...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

ACC 2025 | FLAVOUR II: Angioplastia guiada por FFR derivado de angiografia vs. angioplastia com IVUS

A avaliação fisiológica é eficaz na tomada de decisões para a realização de uma angioplastia coronariana (PCI). No entanto, apesar da evidência disponível, seu...

ACC 2025 | API-CAT: Anticoagulação estendida com dose reduzida vs. plena de Apixabana em pacientes com DTV associada ao câncer

O risco de recorrência da doença tromboembólica venosa (DTV) associada ao câncer diminui com o tempo, ao passo que risco de sangramento persiste. Atualmente...

ACC 2025 | STRIDE: Semaglutida em pacientes com doença arterial periférica e diabetes tipo II

A doença arterial periférica (DAP) é uma complicação grave em pacientes com diabetes tipo II, afetando principalmente os vasos periféricos, especialmente no território abaixo...