ACC 2025 | STRIDE: Semaglutida em pacientes com doença arterial periférica e diabetes tipo II

A doença arterial periférica (DAP) é uma complicação grave em pacientes com diabetes tipo II, afetando principalmente os vasos periféricos, especialmente no território abaixo do joelho (below the knee – BTK). Dita afecção implica uma significativa deterioração, tanto em termos sintomáticos como funcionais. 

ACC 2025

Os guias ACC/AHA recomendam o uso de iSGLT2 e A-GLP1 para o tratamento da diabetes tipo II; não estabelecem, no entanto, especificações particulares para pacientes com DAP. A única medicação classe I indicada atualmente para a claudicação é o cilostazol, cujo uso se vê limitado por uma tolerância variável e por certas contraindicações. 

Os A-GLP1 demonstraram benefícios na redução da HbA1c, peso, inflamação, pressão arterial e complicações renais, com efeitos positivos em termos macro e microvasculares. 

Diante disso, os pesquisadores formularam a hipótese de que o uso de semaglutida (1 mg administrado semanalmente) poderia gerar uma melhora funcional e sintomática em pacientes com DBP II e DAP. 

O estudo incluiu uma randomização 1:1 entre semaglutida 1 mg e placebo. O desfecho primário (DP) foi a mudança na distância máxima de caminhada (MWD), avaliada em esteira ergométrica na semana 52. Os desfechos secundários incluíram a MWD na semana 57, a qualidade de vida vascular segundo o vascularQoL-6 e a distância livre de dor ao caminhar. 

Leia também: Prospective Analysis of the Feasibility of the PASCAL System for Transcatheter Mitral Repair: OneForAll Registry.

Foram incluídos pacientes com HbA1c < 10% em estágios precoces da DAP (Fontaine IIa), com tolerância à caminhada > 200 m e um índice tornozelo-braço (ABI) ≤ 0,9 ou um índice de pressão nos dedos do pé (ITB) ≤ 0,7. Foram excluídos os pacientes em plano de cirurgia ortopédica por limitações na caminhada, com revascularização periférica nos últimos 180 dias, infarto agudo do miocárdio (IAM) ou acidente vascular cerebral (AVC) recente, hospitalização por angina ou ataque isquêmico transitório (AIT) nos últimos 180 dias e função renal < 30 ml/min/1,73m2.

Em total, foram avaliados 792 pacientes provenientes de 112 centros em 20 países. A idade média foi de 68 anos, com 27% de mulheres. A maioria relatou uma limitação de moderada a grave na caminhada. No tocante à medicação de base, mais de 80% dos participantes recebiam estatinas e 40% recebiam iSGLT2.

A análise do DP revelou uma melhora significativa no índice de mudança na MWD no grupo tratado com semaglutida (1,13 [1,06 a 1,21], p = 0,0004), com um impacto clinicamente relevante (OR 1,79 [IC 95%: 1,32–2,43], p = 0,0002). Isso se traduziu na diferença média de 26,4 m na distância percorrida. 

Leia também: Bloqueio do ramo esquerdo após o TAVI, qual é o seu impacto?

A maioria dos subgrupos analisados favoreceram a semaglutida, em particular aqueles com IMC < 28,6, bem como segundo os níveis de HbA1c. Em uma análise exploratória adicional, avaliou-se uma combinação que incluiu eventos de resgate, efeitos adversos maiores relacionados com a extremidade (MALE) e mortalidade, observando-se uma redução de 54% em ditos eventos (HR 0,46, IC 95%: 0,24-0,84).

Conclusão

A semaglutida demonstrou reduzir eventos cardiovasculares maiores (MACE) e melhorar os desfechos cardiometabólicos em pacientes com DBT II. Este estudo amplia o potencial benefício da droga, evidenciando melhoras na capacidade de caminhada e na qualidade de vida de pacientes com DAP e DBT II. 

Apresentado pelo Marc P. Bonaca em Late-Breaking Clinical Trials, ACC 25, 29 marzo, Chicago, EE.UU.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Dr. Omar Tupayachi
Dr. Omar Tupayachi
Membro do Conselho Editorial do solaci.org

Mais artigos deste autor

Guia AHA/ACC 2026 sobre o manejo do TEP

O guia ACC/AHA 2026 para o manejo do tromboembolismo pulmonar (TEP) agudo introduz uma mudança conceitual ao substituir a classificação tradicional “de acordo com...

Quão reais são os efeitos adversos das estatinas? Evidência de ensaios clínicos randomizados

A segurança das estatinas continua sendo motivo de debate, em parte devido à extensa lista de efeitos adversos consignados nas bulas, muitos deles derivados...

Avaliação com FFR para a seleção de pacientes hipertensos que se beneficiam do stenting renal

A estenose aterosclerótica da artéria renal (EAAR) representa uma das principais causas de hipertensão (HTA) secundária e se associa com um maior risco de...

Arterialização transcateter de veias profundas na isquemia crítica sem opções de revascularização: evidência de uma revisão sistemática e metanálise

A isquemia crônica crítica de membros inferiores em pacientes sem opções convencionais de revascularização representa um dos cenários mais complexos no contexto da doença...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

CHIP LATAM | Capítulo 2 – México: Workshop de Complicações

A Sociedade Latino-Americana de Cardiologia Intervencionista convida toda a comunidade médica para participar de um workshop virtual sobre complicações organizado pela área de Intervenções...

Angioplastia coronariana guiada por OCT e IVUS na síndrome coronariana aguda: resultados clínicos a longo prazo

A angioplastia coronariana percutânea (ATC) em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) reduziu a mortalidade na fase aguda. No entanto, a SCA recorrente e...

Resultados de seguimento de um ano do ENCIRCLE: substituição mitral percutânea em pacientes não candidatos a cirurgia nem a TEER

A insuficiência mitral (IM) sintomática em pacientes não candidatos a cirurgia nem a reparo transcateter borda a borda (TEER) continua representando um cenário de...