Valvoplastia aórtica radial: vale a pena ser minimalista?

A valvoplastia aórtica com balão (BAV) foi historicamente empregada como estratégia de “ponte”, ferramenta de avaliação ou inclusive tratamento paliativo em pacientes com estenose aórtica (EAo) severa, especialmente naqueles instáveis ou com contraindicações para o implante valvar. Embora o acesso femoral tenha sido tradicionalmente a principal via de abordagem, este continua associado a uma taxa não depreciável de complicações – principalmente vasculares – comparáveis à observada no TAVI. Em tal contexto, o acesso radial, amplamente dominado pelas equipes de cardiologia intervencionista, surge como uma alternativa promissora.  

O estudo apresentado no JSCAI e realizado no Henry Ford Health System realizou uma análise comparativa entre a BAV por acesso transradial (TRV) e transfemoral (TFV), avaliando o sucesso técnico e hemodinâmico, segurança periprocedimento e desfechos clínicos a curto prazo. 

Foram incluídos 253 pacientes consecutivos entre 2021 e 2024, aplicando-se um ajuste mediante propensity score com IPTW e análise multivariada para reduzir vieses. 

A TRV foi factível na maioria dos casos (96,2%), alcançando um sucesso hemodinâmico similar ao TFV (78,1% vs. 75%; p = NS). É destacável o fato de que nessa coorte o acesso radial tenha se associado com uma redução significativa do desfecho primário composto (VARC 3) – complicação vasculares maiores, sangramento grau 3-4, embolização do balão, morte periprocedimento e eventos não relacionados com o acesso – com incidências de 2,5% vs. 17,5% (ORa 0,13; IC de 95%: 0,04–0,49; p = 0.003).

Os eventos relacionados com o acesso foram dez vezes menores com TRV (0,9% vs. 9,4%; p = 0,041), destacando-se um único caso de aprisionamento do balão, solucionado sem dano vascular. Os eventos não vinculados ao acesso também foram significativamente menores no grupo radial, com uma redução média de 34 minutos e 34 mL, respectivamente. 

Leia também: Fibrilação atrial após oclusão percutânea do forame oval patente: estudo de coorte com monitoramento cardíaco implantável contínuo.

Não foram observadas diferenças em termos de mortalidade periprocedimento nem nos desfechos secundários em 30 dias (mortalidade, re-hospitalização, falha de saída), que foram similares na comparação entre os dois grupos. É importante assinalar que a seleção do acesso radial se realizou com monitoramento ecocardiográfico e critério anatômico (diâmetro > 2,5 mm e ausência de calcificação circunferencial), excluindo-se pacientes com fístulas AV ou doença renal terminal. A taxa de conversação a acesso femoral foi baixa (3,8%).

Conclusões

Este estudo respalda a factibilidade e segurança da BAV por acesso radial, com taxas de sucesso técnico e hemodinâmico comparáveis, mas com um perfil de segurança claramente superior. A relevância desses achados é particularmente significativa em pacientes frágeis ou com alto risco vascular. 

Título original: Comparative Effectiveness of Balloon Aortic Valvuloplasty via Transradial and Transfemoral Access

Referência: Fang JX, Villablanca PA, Frisoli TM, Engel Gonzalez P, Lee JC, Fram GK, et al. Comparative Effectiveness of Balloon Aortic Valvuloplasty via Transradial and Transfemoral Access. Journal of the Society for Cardiovascular Angiography & Interventions [Internet]. [cited 2025 Nov 18]; Available from: https://doi.org/10.1016/j.jscai.2025.104015.


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Dr. Omar Tupayachi
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Membro do Conselho Editorial do solaci.org

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