Resultados da Valvuloplastia aórtica na era do TAVI

Título original: Balloon aortic valvuloplasty in the era of transcatheter aortic valve replacement: Acute and long-term outcomes. Referência: Hélène Eltchaninoff et al. Am Heart J 2014;167:235-40.

O entusiasmo inicial na valvuloplastia aórtica de finais dos 80 foi rapidamente atenuado com a publicação de vários estudos mostrando uma alta taxa de complicações, pouca durabilidade e impacto escasso ou nulo na sobrevida. Desde essa época têm surgido várias mudanças como a redução no diâmetro do introdutor, o marca-passo a taxas rápidas, os dispositivos de fechamento percutâneo e por sobre tudo a introdução da substituição valvular percutânea (TAVI) em 2002 que têm feito surgir a técnica da valvuloplastia. 

Pacientes com estenose aórtica severa (EAo S) e insuficiência cardíaca, deterioro severo da função ventricular o choque cardiogênico que poderiam ser elegíveis para uma terapia definitiva (substituição valvular percutânea ou cirúrgica) pode ser realizada a valvuloplastia a modo de transição. Outras indicações possíveis são aqueles pacientes com EAo S sintomática que devem se submeterem a uma cirurgia não cardíaca urgente e com menos frequência como um procedimento compassivo para aliviar sintomas. 

Foram incluídos 323 pacientes consecutivos nos que foi realizada valvuloplastia aórtica em um centro entre 2005 e 2008. No procedimento foi utilizado o Cristal balloons (BALT, Montmorency, France) em diâmetros de 20, 23 e 25 mm embora em geral o balão utilizado por default foi o 23. Para estabilizar a posição através da válvula foi usado marca-passos com taxa rápida (180-200 batidas/min) em forma sistemática. 

Foi definido o êxito do procedimento a uma área valvular ≥1 cm² ou uma diminuição do gradiente médio >50%.  Dos 323 pacientes, em 239 (74%) o procedimento foi realizado como transição à substituição, em 49 (15.2%) por instabilidade clínica seja choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca refratária e em 37 (11.4%) prévio a uma cirurgia não cardíaca. 

Todos apresentavam alto risco com uma idade média de de 80.5 ± 9.9 anos e um EuroSCORE logístico médio 28.7 ± 12.5%.  Logo da valvuloplastia o gradiente médio diminuiu (de 44.0 ± 18.9 a 20.7 ± 11.0 mm Hg; p=0.001) e a  área valvular aumentou (de 0.68 ± 0.25 a 1.12 ± 0.39 cm2; p=0.001) de maneira significativa. Foi atingida a definição de êxito em 261 pacientes (80.8%). 

Observaram-se 8 mortes intra hospitalares (2.5%) e 22 complicações maiores (6.8%). Destas últimas 8 (2.5%) foram relacionadas ao acesso e 6 foram strokes (1.8%). Foi obtido seguimento a 20.7 ± 20 meses durante o qual 85 pacientes (26.3%) receberam finalmente uma terapia definitiva (9.6% cirurgia e 16.7% TAVI). 238 pacientes (65%) permaneceram com tratamento médico somente. A sobrevida estimada a 5 anos logo da valvuloplastia foi de 40% para os que finalmente receberam cirurgia, 22% para os que receberam TAVI e 3.3% para os que receberam tratamento médico (log-rank p<0.001). 

Conclusão: 

Os resultados imediatos logo da valvuloplastia aórtica são satisfatórios com uma taxa aceitável de complicações. A sobrevida no seguimento para os que finalmente receberam cirurgia a substituição percutânea foi razoável levando em conta que o estudo foi realizado nos começos da era da substituição percutânea. 

Comentário editorial 

Na época na que foi realizado, a substituição percutânea no era padrão na França pelo que para receber TAVI deviam ingressar a algum estudo randomizado ou registro com seus correspondentes critérios de inclusão e exclusão. Hoje provavelmente muitos mais têm chegado  a fazer a substituição percutânea. 

SOLACI.ORG

Mais artigos deste autor

Técnica UNICORN para prevenir a obstrução coronariana durante o TAVI: resultados iniciais de um estudo multicêntrico

A obstrução coronariana é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente catastrófica, do implante transcateter da valva aórtica (TAVI), especialmente em procedimentos valve-in-valve, TAV-in-TAV ou...

Resultados hemodinâmicos do reparo borda a borda em insuficiência mitral degenerativa e funcional

O reparo mitral transcateter borda a borda (M-TEER) se consolidou como uma opção terapêutica para a valvopatia mitral. Entre as técnicas disponíveis, o M-TEER...

A durabilidade do TAVI com SAPIEN 3: dez anos de seguimento em pacientes com risco intermediário

A durabilidade das próteses biológicas transcateter utilizadas no TAVI continua sendo um dos principais interrogantes no que se refere à expansão dessa estratégia a...

Inflamação depois do TAVI: um objetivo terapêutico emergente?

Os distúrbios de condução e a necessidade de implante de marca-passo definitivo continuam sendo complicações frequentes após o TAVI, com uma incidência próxima de...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Técnica UNICORN para prevenir a obstrução coronariana durante o TAVI: resultados iniciais de um estudo multicêntrico

A obstrução coronariana é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente catastrófica, do implante transcateter da valva aórtica (TAVI), especialmente em procedimentos valve-in-valve, TAV-in-TAV ou...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

Supera vs. Eluvia em lesões femorpoplíteas calcificadas com calcificação severa

A calcificação seveera continua sendo um dos principais preditores de reestenose e de necessidade de novas revascularizações após o tratamento endovascular da doença femoropoplítea....