A fibrilação atrial se associa com um aumento do risco de AVC e, em pacientes com contraindicação para anticoagulação, a oclusão percutânea do apêndice atrial esquerdo se constitui como uma alternativa eficaz para a prevenção tromboembólica. Embora se trate de um procedimento seguro, a embolização do dispositivo é uma complicação infrequente mas potencialmente grave, com uma incidência global relatada de entre 0 e 1,5%.

O que se apresentará a seguir é uma revisão narrativa publicada na REC Interventional Cardiology, que integra evidência proveniente de registros internacionais, estudos observacionais, ensaios clínicos e metanálises. A análise identifica como principais preditores de embolização fatores anatômicos (apêndices tipo cactos, pescoços largos ou baixa profundidade), fatores fisiológicos (ritmo sinusal no momento do implante, associado a maior risco de embolização tardia em registros como o NCDR LAAO) e fatores técnicos (infra ou superdimensionamento do dispositivo). Quanto ao momento de ocorrência, a maioria dos eventos ocorre no período agudo (primeiras 24 horas), ao passo que as embolizações no território periférico são mais frequentes em fases tardias (> 45 dias).
Foi observada uma redução da embolização com as novas gerações de dispositivos (como o WATCHMAN FLX e o Amplatzer Amulet) em comparação com as gerações prévias. Nos principais estudos comparativos, as taxas de embolização se mantêm baixas e globalmente similares entre plataformas, em torno de 0,2%–0,9%.
No tocante ao sítio de migração, os dados de revisões sistemáticas e registros mostram que a aorta é a localização mais frequente (30%–37%), seguida do ventrículo esquerdo (20%–33%), do átrio esquerdo (24%) e das artérias periféricas (5%). A embolização no âmbito do ventrículo esquerdo se associa a maior complexidade e necessidade de cirurgia, com taxas de intervenção cirúrgica de até 44,4%.
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Em termos de manejo, a estratégia inicial em pacientes hemodinamicamente estáveis é a recuperação percutânea, com sucesso em aproximadamente 66% dos casos na primeira tentativa. No entanto, cerca de um terço dos pacientes requer uma segunda tentativa ou cirurgia, associando-se o fracasso da primeira tentativa a um incremento significativo da mortalidade (2,9% vs. 21,4%). A escolha da abordagem depende da localização, do tamanho do dispositivo e da estabilidade clínica; os dispositivos de nitinol (como o Amplatzer) apresentam maior facilidade de ruptura em comparação com outros dispositivos. Em pacientes selecionados, assintomáticos e com dispositivos alojados na aorta descendente, o manejo conservador pode ser considerado como uma alternativa.
Do ponto de vista preventivo, a revisão enfatiza o planejamento com imagem multimodal (ETE 2D/3D e tomografia computadorizada), a correta seleção do tamanho do dispositivo e a experiência do operador (≥ 25 punções transeptais e ≥ 10 procedimentos de oclusão de apêndice). Também se recomenda o cumprimento de critérios técnicos de liberação (PASS para WATCHMAN e CLOSE para Amulet) e o controle com imagem aos 45–90 dias.
Manejo da embolização do dispositivo de oclusão do apêndice atrial esquerdo: recuperação percutânea, cirurgia e prevenção
Em conclusão, a embolização do dispositivo de oclusão do apêndice atrial esquerdo é uma complicação pouco frequente (cerca de 1%), mas clinicamente relevante, com uma apresentação e manejo dependentes de fatores anatômicos, técnicos e do dispositivo. A recuperação percutânea é a estratégia inicial de escolha, ficando reservada a cirurgia para casos complexos ou diante do fracasso da abordagem inicial. A melhora no design dos dispositivos e a otimização da planificação do procedimento serão determinantes para reduzir ainda mais sua incidência.
Título Original: Embolization of left atrial appendage occluders: review of the current evidence.
Referência: Miguel Á. Martín-Arena, Guillermo Galeote-García, Alejandro Lara-García, Alfonso Jurado-Román, et al. REC Interv Cardiol. 2026;8(1):46-54.
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