Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

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Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que os fellows compartilhem casos clínicos da prática real, discutam estratégias terapêuticas e analisem os principais desafios do intervencionismo cardiovascular contemporâneo.

Nesta oportunidade, apresentamos um caso clínico acompanhado por uma série de perguntas interativas que convidam à reflexão sobre a tomada de decisões em cenários complexos. Ao final, compartilharemos a resolução do caso e a estratégia que foi efetivamente implementada.

Nesta segunda edição, abordamos uma situação pouco frequente, porém de enorme impacto clínico: “Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias”.


  • Autores do caso: Dra. Lorena Anahí Barrera Pérez (México), Dr. Oscar Manuel Granados Casas, Dr. Julio César Mayén Casas.
  • Instituição: Hospital Regional “1° de Octubre” – ISSSTE.
  • Chefe do Serviço: Dr. González Coronado Vidal José.

Índice de Conteúdo


Apresentação do Caso: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Dados Clínicos e Antecedentes

  • Diabetes mellitus tipo 2 diagnosticada há 2 anos, em tratamento com Metformina 850 mg a cada 24 horas.
  • Hipertensão arterial sistêmica diagnosticada há 2 anos, em tratamento com Enalapril 10 mg a cada 24 horas.
  • Toxicomanias: etilismo crônico diário durante 49 anos, com episódios frequentes de embriaguez.
  • Demais antecedentes relevantes: negados.

História Clínica

  • Paciente com antecedente de síndrome coronariana crônica classe III.

  • Refere infarto agudo do miocárdio em 2022 sem realização de angioplastia. Estava em tratamento com Atorvastatina 20 mg a cada 24 horas, Clopidogrel 75 mg a cada 24 horas e Metoprolol 100 mg a cada 24 horas, porém sem acompanhamento médico posterior.

Fatores de Risco Cardiovascular

  • Idade, sexo masculino, sedentarismo, etilismo, síndrome coronariana crônica, diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial sistêmica.

Exames Complementares

  • Perfil cardíaco: CPK 1407 | CK-MB 196,1 | Troponina I 1800.
  • Perfil lipídico: Colesterol total 127,5 | Triglicerídeos 107,6.
  • Perfil metabólico: Glicose 216,3 | BT 0,64 | BD 0,34 | BI 0,3 | TGO 117,6 | TGP 70,3 | FA 101 | PT 6,2 | DHL 327 | GGT 88.
  • Eletrólitos séricos: Na 133 | K 4,44 | Cl 101 | Ca 8,34 | P 3,76 | Mg 2,1.
  • Química sanguínea: BUN 27,33 | Ureia 58,6 | Creatinina sérica 1,0.
  • Hemograma: Leucócitos 20,6 | Neutrófilos 13,7 | Linfócitos 3,24 | Hb 17,3 | Ht 52,9 | Plaquetas 346.000.

Artéria Descendente Anterior (ADA)

Artéria Coronária Direita (ACD)

Justificativa

O infarto agudo do miocárdio (IAM) continua sendo uma das principais causas de morbimortalidade em todo o mundo. Seu mecanismo fisiopatológico mais frequente é a oclusão coronária aguda secundária à trombose sobre uma placa aterosclerótica rota. Entretanto, a presença de trombose simultânea em duas ou mais artérias coronárias representa uma condição incomum, associada a elevada mortalidade.

O reconhecimento dessa condição constitui um verdadeiro desafio diagnóstico, pois os achados eletrocardiográficos podem sugerir comprometimento de múltiplos territórios ou uma lesão extensa capaz de mascarar outra oclusão concomitante. A oclusão coronária multivaso está associada à instabilidade hemodinâmica, choque cardiogênico e arritmias ventriculares potencialmente fatais, exigindo diagnóstico precoce e estratégia imediata de revascularização.

Apresentamos o caso de um paciente do sexo masculino com infarto agudo do miocárdio secundário à oclusão simultânea da artéria descendente anterior e da artéria coronária direita, evoluindo para choque cardiogênico refratário ao tratamento.

Participe Conosco – O Que Você Teria Feito?

Antes de conhecer a resolução do caso — disponível abaixo — convidamos você a participar da discussão respondendo às perguntas de múltipla escolha.

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Questão 1

Em um paciente com IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) e oclusão trombótica simultânea da artéria descendente anterior (ADA) e da artéria coronária direita (ACD), com alta carga trombótica, qual é a conduta mais adequada?

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Questão 2

Em um paciente com IAMCSST, ECG com depressão do segmento ST em mais de 8 derivações, elevação do ST em aVR >1 mm e QRS alargado, qual é a conduta diagnóstica mais apropriada diante da suspeita de dupla artéria culpada?

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Questão 3

Durante uma ICP primária em um paciente com IAMCSST e elevação do ST anterior e inferior, o ECG não permite identificar claramente o vaso predominante. Qual deve ser o principal critério para decidir qual artéria tratar primeiro?

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Questão 4

Em um paciente com IAMCSST e oclusão simultânea da ADA e da ACD em choque cardiogênico, além da revascularização urgente, qual conduta adicional é mais apropriada devido à elevada carga trombótica?

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Questão 5

Em um paciente com IAMCSST multivaso e trombose simultânea, após revascularização bem-sucedida, qual investigação etiológica deve ser considerada devido à associação com estados protrombóticos?

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Pergunta final sobre a resolução do caso

No caso apresentado, foi realizada ICP primária em ambas as artérias durante o mesmo procedimento, priorizando inicialmente a ADA e posteriormente a ACD devido à deterioração hemodinâmica do paciente e à elevada carga trombótica.

Com base nas recomendações atuais da European Society of Cardiology e da American Heart Association, você considera adequada a estratégia terapêutica adotada?

Resolução do Caso

Conduta Terapêutica

Neste paciente, optou-se por intervir em ambas as artérias durante o mesmo procedimento devido à deterioração hemodinâmica e ao desenvolvimento de choque cardiogênico. Diferentemente dos pacientes hemodinamicamente estáveis — nos quais as diretrizes geralmente sugerem uma estratégia escalonada —, neste cenário foi escolhida uma revascularização imediata e completa.

Inicialmente foi realizada angioplastia com implante de stent na artéria descendente anterior e, posteriormente, angioplastia da artéria coronária direita. Além disso, foram administrados inibidores da glicoproteína IIb/IIIa, terapia antiplaquetária dupla e heparina não fracionada.

Justificativa das Decisões

  • A artéria culpada responsável pelo território miocárdico de maior risco deve ser tratada primeiro.
  • As tromboses múltiplas em pacientes com IAM com supra de ST são pouco frequentes e, na maioria dos casos, as evidências disponíveis provêm de relatos isolados, dificultando o estabelecimento de estratégias terapêuticas uniformes.
  • A revascularização no menor tempo possível é fundamental, pois esses pacientes necessitam de terapia de reperfusão imediata e tratamento farmacológico intensivo para melhorar o prognóstico.

Evolução e Resultados Clínicos

No eletrocardiograma de controle após o procedimento observou-se redução do segmento ST, com estabelecimento de necrose nas derivações comprometidas no traçado inicial.

Apesar disso, o paciente permaneceu com instabilidade hemodinâmica e choque cardiogênico refratário. Cinco horas após o procedimento apresentou parada cardiorrespiratória, sem recuperação da circulação espontânea apesar das manobras avançadas de ressuscitação.


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