De acordo com os últimos guias europeus, o implante de válvula aórtica transcateter (TAVI) é o tratamento recomendado para pacientes de ≥ 70 com estenose aórtica grave sintomática, independentemente do risco cirúrgico estimado. Devido ao fato de o TAVI se realizar cada vez mais frequentemente em pacientes com uma maior expectativa de vida, o interesse foi evoluindo progressivamente da viabilidade do procedimento ao rendimento específico de cada dispositivo, sua segurança e suas implicações clínica a longo prazo.

Os avanços tecnológicos impulsionaram o desenvolvimento de válvulas cardíacas transcateter (THV) autoexpansíveis de nova geração, projetadas para melhorar a facilidade de implante, a selagem anular e o rendimento hemodinâmico. Em tal contexto, os designs intra-anulares (IA) e supra-anulares (SA) de válvulas representam duas estratégias de engenharia diferentes, cada uma com potenciais vantagens e limitações. As configuraçoes supra-anulares se associaram a maiores áreas de orifício efetivo e menores gradientes transvalvares, ao passo que as plataformas intra-anulares poderiam oferecer vantagens em termos de acesso coronariano e manejo a longo prazo.
Estudos prospectivos recentes de um único braço demonstraram uma excelente segurança e um ótimo rendimento hemodinâmico tanto para as válvulas autoexpansíveis (SEV) de nova geração com design IA quanto para a de design SA.
No entanto, a evidência comparativa entre as duas plataformas de nova geração continua sendo limitada, já que a maioria das análises provém de experiências de um único centro ou país, incluem gerações mistas de dispostivos ou fazem foco em subgrupos anatômicos selecionados e em resultados de curto prazo.
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Em tal contexto, o estudo HERA-TAVI (Clinical and HEmodynamic Outcomes with ContempoRary Intra- and Supra-Annular Self-Expanding Valves) foi projetado para comparar os resultados clínicos e o rendimento hemodinâmico em seguimento de 30 dias e de 1 ano entre as SEV de nova geração com design IA e SA, utilizando uma ampla coorte representativa da prática clínica contemporânea.
Analizaram-se 2607 pacientes tratados entre 2021 e 2025. Os dispositivos utilizados foram as IA-SEV Navitor/Navitor Vision (Abbott) e as SA-SEV Evolut FX/FX+ (Medtronic). Procedeu-se a um emparelhamento por escore de propensão (propensity score matching, PSM), obtendo-se 892 pares adequadamente balanceados.
No tocante ao desfecho primário do seguimento de 1 ano, não foram observadas diferenças significativas no composto de morte por qualquer causa, acidente vascular cerebral (AVC) discapacitante ou hospitalização por insuficiência cardíaca (IA: 12,6% vs. SA: 11,3%; p = 0,422).
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Apesar de apresentarem uma eficácia comparável, as plataformas mostraram perfis de segurança diferentes. As IA-SEV (Navitor) se associaram a uma maior taxa de implante de marca-passo permanente (22,1% vs. 16,3%; p = 0,007) e a uma maior incidência de tamponamento pericárdico (1,1% vs. 0,2%; p = 0,020). Por sua vez, as SA-SEV (Evolut FX) apresentaram uma maior taxa de sangramento maior ou potencialmente mortal (4,2% vs. 2,6%; p < 0,001). O sucesso do dispositivo, definido segundo os critérios VARC-3, foi elevado nos dois grupos e similar entre eles (> 90%).
Do ponto de vista hemodinâmico, ambas as plataformas mantiveram gradientes médios baixos e comparáveis em 1 ano de seguimento (7 mmHg em ambos os grupos; p = 0,429). A incidência de regurgitação paravalvar (PVL) moderada ou grave foi baixa e similar (2,2% em IA vs. 1,6% em SA). A plataforma IA apresentou uma maior frequência de PVL leve em 30 dias, embora dita diferença tenha tendido a desaparecer em 1 ano.
Conclusão: as válvulas intra-anulares e supra-anulares de nova geração oferecem resultados clínicos equivalentes em 1 ano, com perfis de seguranda diferenciados
As plataformas IA e SA contemporâneas demonstraram ser clinicamente equivalentes em termos de mortalidade e complicações maiores em um ano de seguimento. A escolha do dispositivos deve ser individualizada, considerando a anatomia do paciente, o risco de distúrbios de condução, o acesso vascular e a estratégia de manejo por toda a vida, especialmente em relação a um eventual acesso coronariano futuro.
Título original: Clinical and haemodynamic outcomes with contemporary intra- and supra-annular self-expanding valves: the multicentre international HERA-TAVI registry.
Referência: EuroIntervention. 2026;22:e730-e740.





