Técnica UNICORN para prevenir a obstrução coronariana durante o TAVI: resultados iniciais de um estudo multicêntrico

A obstrução coronariana é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente catastrófica, do implante transcateter da valva aórtica (TAVI), especialmente em procedimentos valve-in-valve, TAV-in-TAV ou em pacientes com anatomias de alto risco, como uma baixa altura coronariana ou o sequestro do seio de Valsalva. A técnica BASILICA demonstrou reduzir dito risco por meio da laceração longitudinal intencional da valva aórtica antes do implante protético; no entanto, a mesma apresenta limitações técnicas em determinados cenários anatômicos.

A UNICORN (Undermining Coronary Obstruction with Radiofrequency Needle) é uma técnica de modificação valvar que, a partir do cruzamento da valva com um guia conectado a um eletrobisturi, realiza dilatações progressivas com balão intrafolheto da valva, permitindo implantar a prótese através do orifício criado ou produzir a laceração completa do folheto valvar antes do implante. Este estudo multicêntrico retrospectivo avaliou os resultados inciais da estratégia. 

O desfecho primário de eficácia foi o sucesso do procedimento, definido como um implante bem-sucedido por meio da técnica UNICORN sem obstrução coronariana, morte, cirurgia de emergência nem reintervenção periprocedimento. O desfecho primário de segurança foi uma combinação, em um seguimento de 30 dias, de morte, AVC, obstrução coronariana com necessidade de reintervenção, lesão renal aguda em estágio 3-4, sangramento com risco de vida, complicações vasculares maiores e reintervenção valvar. Ademais, avaliou-se a incidência de hipotensão intraprocedimento. 

Leia tambén: Supera vs. Eluvia em lesões femorpoplíteas calcificadas com calcificação severa.

Foram incluídos 53 pacientes consecutivos tratados entre março de 2024 e maio de 2025 em nove centros dos Estados Unidos e do Reino Unido. A mediana de idade foi de 78 anos, 64% da população esteve constituída de mulheres e o STS-PROM médio foi de 7,0% (RIC 4,5-11,8); 45% dos pacientes apresentavam alto risco cirúrgico e 36%, risco intermediário. Oito pacientes (15%) foram tratados na valva nativa, 30 (57%) corresponderam a procedimentos valve-in-valve na bioprótese cirúrgica e 15 (28%) a TAV-in-TAV. A coronária esquerda se encontrava em risco de obstrução em 51% dos casos, a direita em 17% e ambas em 32%.

O mecanismo anatômico predominante foi o sequestro do seio de Valsalva (60%), seguido de seios estreitos (40%). O acesso foi tranfemoral em 91% dos procedimentos, utilizaram-se dispositivos de proteção cerebral em 77% e implantaram-se válvulas SAPIEN 3 em 83% e Evolut em 17%. Em 40 pacientes (76%), a prótese se expandiu dentro do trajeto criado na valva sem gerar uma laceração completa (intraleaflet deployment), ao passo que em 13 (24%) foi alcançado um laceração completa do folheto valvar antes do implante. 

O sucesso técnico foi elevado. O cruzamento da valva, o implante protético e a sobrevivência intraprocedimento foram alcançadas em 100% dos casos, ao passo que o sucesso global do procedimento foi de 96% (51/53). Dois pacientes (4%) apresentaram obstrução do tronco da coronária esquerda, ambos tratados com sucesso por meio de angioplastia com implante de stent. A segurança global em 30 dias foi de 87%. 

Leia também: É necessário usar o IVUS de forma rotineira na angioplastia do tronco da coronária esquerda?

Não houve registro de mortes, lesão renal aguda em estágio 3-4 nem reintervenções valvares. Ocorreram 3 AVC (6%), tendo sido um deles discapacitante (2%), além de dois sangramentos com risco de vida (4%) e duas complicações vasculares maiores (4%). A hipotensão intraprocedimento ocorreu em 12 pacientes (23%) e foi resolvida em todos os casos após o implante valvar. Como eventos seceundários, registrou-se um infarto periprocedimento (2%), sem casos de derrame pericárdico, tamponamento cardíaco nem endocardite em 30 dias. 

Conclusão: a técnica UNICORN mostrou alta eficácia, mas requer uma adequada seleção de pacientes

A técnica UNICORN demostrou ser uma estratégia eficaz para prevenir a obstrução coronariana durante o TAVI. Entretanto, a hipotensão intraprocedimento foi frequente e persiste a preocupação por um possível incremento de eventos tromboembólicos, particularmente AVC. Os autores concluem que a técnica deveria ser reservada para pacientes nos quais as alternativas de menor risco provavelmente não sejam a melhor opção e destacam a necessidade de estudos prospectivos que permitam definir com maior precisão suas indicações. 

Título Original: UNICORN During Transcatheter Aortic Valve Replacement in Native and Bioprosthetic Aortic Valves: A Multicenter Study

Referência: Elsa Hebbo, MD; John T. D’Angelo, MD; et al. JACC: Cardiovascular Interventions. 2026;19:1595-1603.


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