Os programas de busca de aneurismas de aorta abdominal ficaram anacrônicos?

Com a palpável queda do tabagismo em termos mundiais, também caiu a mortalidade associada à ruptura de um aneurisma de aorta abdominal (AAA). Todos os programas para sua detecção foram desenhados em décadas passadas, quando o risco era maior. Por isso, talvez seja o momento de repensar os programas, ou ao menos desenhar novos estudos randomizados e controlados que nos indiquem o caminho.

Esta análise sueca investigou a mortalidade associada a AAA nos últimos anos e faz uma comparação entre os homens de regiões que tiveram acesso a uma triagem adequada para esta doença e aqueles que não tiveram. O resultado nos obriga a formular uma pergunta: continua valendo a pena, na atualidade, fazer a busca sistemática da doença?

 

O programa sueco foi implementado com base em estudos randomizados e controlados realizados entre os anos 80 e 90 quando a incidência da doença era outra. Hoje temos alguns trabalhos que nos falam de uma redução de até 70% da incidência de AAA, o que poderíamos atribuir principalmente à diminuição do tabagismo. Com a queda na incidência da doença também seria esperável uma redução no benefício clínico concreto dos programas de triagem, ou ao menos uma alteração da relação custo/benefício dos mesmos.


Leia também: O TAVI de urgência/emergência é uma opção válida.


O presente trabalho recentemente publicado no The Lancet analisou a mortalidade associada ao AAA entre os anos 1987 e 2015, tendo constatado uma diminuição de 36 a somente 10 mortes por cada 100.000 homens entre 65 e 74 anos.

 

Comparou-se também a mortalidade entre regiões nas quais tiveram acesso a estes programas de busca sistemática e aquelas regiões nas quais não tiveram acesso. A redução da mortalidade após 6 anos de seguimento não se modificou pela triagem (OR 0,76; IC 95% 0,38-1,51). Com os números atuais, por cada 10.000 homens nos quais se busque ativamente a doença se poderia esperar evitar 2 mortes.

 

É óbvio que no grupo estudado tenham sido diagnosticados mais AAA, o que levou a 19 intervenções programadas por cada 10.000 homens, embora tenham sido sobrediagnosticados 49 casos.


Leia também: Avaliação funcional das estenoses coronarianas na vida real: a ficha ainda não caiu.


As limitações do estudo se relacionam com o fato de o mesmo não fornecer informação sobre o tamanho e tipo dos aneurismas detectados e também com o fato de os programas de interrupção do hábito de fumar não ter funcionado tão bem em todos os países, motivo pelo qual a diminuição da incidência do AAA na Suécia não significa necessariamente uma redução da doença em todos os outros países.

 

Título original: Benefits and harms of screening men for abdominal aortic aneurysm in Sweden: a registry-based cohort study.

Referência: Johansson M et al. Lancet. 2018;391:2441-2447.


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