ACC 2020 Virtual | A denervação renal ressurge com nova evidência

Os pacientes que não têm sua pressão arterial sob controle e além disso não cumprem com o tratamento podem se beneficiar com a denervação renal, reduzindo tanto a tensão arterial ambulatorial quanto a de consultório quando comparados com aqueles que receberam um procedimento encoberto. 

Esta nova informação surge do estudo SPYRAL HTN-OFF MED, apresentado de forma virtual no ACC 2020 e simultaneamente publicado no Lancet. 

Após 3 meses de realizado o procedimento foi observada uma diferença de 4 mmHg no monitoramento ambulatorial a favor do grupo submetido a denervação renal, bem como uma redução de 6 mmHg na tensão sistólica de consultório. A denervação também foi efetiva nos registros diastólicos de tensão. 

Este efeito se manteve durante as 24 horas, o que é uma boa notícia, já que é durante a noite que a relação entre tensão arterial e eventos cardiovasculares é mais preponderante. 

Os 4 ou 6 mmHg parecem bastante modestos, mas caso se sustentem no tempo podem ser suficientes para serem traduzidos em redução de eventos clínicos e AVC. 


Leia também: ACC 2020 Virtual | POPULAR TAVI: anticoagulação sem clopidogrel pós-TAVI?


O presente estudo, denominado SPYRAL HTN-OFF MED, incluiu algo mais de 300 pacientes que não estavam tomando os medicamentos indicados ou que eventualmente estavam em condições de terem a terapia medicamentosa suspensa e que apresentavam uma tensão sistólica de consultório superior a 150 mmHg mas inferior a 180 mmHg e uma diastólica superior a 90 mmHg. O critério para a tensão arterial ambulatorial era que fosse superior a 140 mmHg mas inferior a 170 mmHg. 

Os pacientes foram randomizados a denervação renal com o cateter multieletrodo Symplicity Spyral e o gerador de radiofrequência Symplicity G3 vs. procedimento encoberto. Se os pacientes estavam recebendo algum anti-hipertensivo devia transcorrer um período de 3 ou 4 semanas para assegurar que já não houvesse efeito de drogas. 

O desfecho primário da tensão sistólica ambulatorial em 3 meses foi superior no grupo denervação (4,7 vs. 0,6 mm Hg; p < 0,001).


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Ler este estudo nos gera várias perguntas: sabia-se que os pacientes não estavam tomando a medicação e não interviram para modifica tal situação? Ou, ainda pior, suspenderam o tratamento propositadamente quando há evidência de que sua manutenção implica a redução de eventos. Isso sem falar do procedimento encoberto, que sempre nos gera certa dúvida de índole ética, já que implica expor um paciente a complicações relacionadas com o acesso, por exemplo, sem que se esteja realmente realizando um procedimento terapêutico. 

Contudo, essa parecia ser a única maneira de provar que a denervação realmente tem um efeito terapêutico, anulando a aderência à medicação (porque esta foi zero para ambos) e anulando o efeito placebo com o procedimento encoberto. 

O estudo SPYRAL HTN-ON MED está em processo e diferencia-se deste, no qual os pacientes recebem pelo menos 3 anti-hipertensivos distintos sem sucesso no controle da tensão arterial. 

Título original: Efficacy of catheter-based renal denervation in the absence of antihypertensive medications (SPYRAL HTN-OFF MED pivotal): a multicentre, randomised, sham-controlled trial.

Referência: Böhm M et al. Lancet. 2020; Epub ahead of print y presentado en el ACC 2020.


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