Perfurações coronarianas e o uso de stents recobertos: uma estratégia segura e eficaz a longo prazo?

As perfurações coronarianas continuam sendo uma das complicações mais graves do intervencionismo coronariano (PCI), especialmente nos casos de rupturas tipo Ellis III. Diante dessas situações de extrema urgência, o implante de stents recobertos se consolidou como uma das estratégias de escolha para conseguir uma selagem imediata da lesão. No entanto, a evidência histórica com dispositivos de camada dupla recobertos com politetrafluoroetileno (PTFE) mostrou elevadas taxas de trombose, reestenose e necessidade de revascularização. 

Em tal contexto, o estudo RECOVER se propôs a avalia a segurança e a eficácia comparativa em 12 meses dos stents recobertos de “nova geração”: os modelos de uma única camada com recobrimento de PTFE (BeGraft) versus os de poliuretano (PK Papyrus), em pacientes com perfuração coronariana durante uma PCI. Foi analisado tanto o desempenho procedimental (strategy success) quanto os eventos clínicos maiores em um ano, incluindo-se mortalidade, infarto agudo do miocárdio, revascularização do vaso tratado e trombose definitiva do stent. 

Foi feita uma análise retrospectiva e multicêntrica com dados individuais de pacientes. Foram incluídos 170 casos consecutivos tratados em 20 centros europeus entre 2013 e 2019. Foram avaliados 208 stents implantados (92 PTFE e 116 PU), analisando o sucesso técnico, a avaliação clínica em 12 meses e a segurança trombótica. 

Leia também: Um novo paradigma na estenose carotídea assintomática? Resultados unificados do ensaio CREST-2.

A população estudada apresentou uma idade média de 72 anos, predomínio masculino e uma elevada prevalência de hipertensão, diabetes e doença coronariana extensa. A maioria das lesões tratadas se localizaram em coronárias nativas (93%), com uma alta proporção de calcificação moderada ou severa (> 80%). Um achado especialmente relevante foi a expressiva diferença na proporção de oclusões totais crônicas: 51,3% no grupo PTFE versus 8,5% no grupo PU (p < 0,001). Isso sugere que os operadores tenderam a utilizar BeGraft em anatomias mais complexas, possivelmente de maior comprimento, o que também se reflete em um comprimento total do stent significativamente maior (43,9 vs. 24,4 mm; p < 0,001). Aproximadamente 28% dos pacientes apresentou tamponamento cardíaco e cerca de um terço requereu pericardiocentese, sem diferenças significativas entre os grupos. 

Ambos os dispositivos mostraram uma elevada taxa de sucesso do procedimento (strategy success 94,1%), com uma selagem angiográfica bem-sucedida em quase 95% dos casos. A necessidade de cirurgia de resgate foi baixa (4,1%) e se limitou exclusivamente ao grupo PU. Em 12 meses, a mortalidade global foi de 11,8%, sem diferenças estatisticamente significativas entre os grupos (6,8% vs. 8,1%). A incidência de infarto espontâneo foi muito baixa em ambas as estratégias (< 1,5%). 

Leia também: Impacto da Pressão Arterial Sistólica Basal nas Alterações Pressóricas após a Denervação Renal.

A trombose definitiva ou provável do stent foi pouco frequente e comparável entre os grupos (2,4% global), o que sugere que as melhoras no design dos stents recobertos de uma única camada contribuíram para reduzir esse risco historicamente elevado. As taxas de revascularização do vaso tratado (TVR) e da lesão tratada (TLR) foram elevadas em ambos os grupos (até 28,4%), embora sem diferenças significativas após o ajuste estatístico. 

Conclusões

O estudo RECOVER demonstra que tanto os stents recobertos BeGraft como os PK Papyrus de nova geração são ferramentas eficazes e seguras para o manejo de perfurações coronarianas. Embora os eventos isquêmicos e a necessidade de reintervenção continuem sendo consideráveis, os resultados respaldam a utilização desses dispositivos em cenários de alta urgência. 

Título original: Comparative safety and efficacy of new-generation single-layer polytetrafluorethylene- versus polyurethane-covered stents in patients with coronary artery perforation for the RECOVER (REsults after percutaneous interventions with COVERed stents) Investigators. 

Referência: Voll F, Olivecronab G, Ferenc M, Hellig F, Schlundt C, Wöhrle J, Cassese S, Rottbauer W, Witkowski A, Xhepa E, Kuliczkowski W, Strauss L, Schrage B, Joner M, von Zur Mühlen C, Cook S, Miljak T, Eggebrecht H, Eeckhout E, Laugwitz KL, Monsegu J, Schunkert H, Westermann D, Kastrati A, Dumonteil N, Birkemeyer R, Kufner S. Comparative safety and efficacy of new-generation single-layer polytetrafluorethylene- versus polyurethane-covered stents in patients with coronary artery perforation for the RECOVER (REsults after percutaneous interventions with COVERed stents) Investigators. Cardiovasc Interv Ther. 2025 Apr;40(2):296-305. doi: 10.1007/s12928-025-01084-y. Epub 2025 Feb 7. PMID: 39918675; PMCID: PMC11910408.


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Dr. Omar Tupayachi
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