As lesões não responsáveis são realmente “inocentes”?

Nos últimos tempos tem surgido muita evidência sobre a redução da duração ou da intensidade do tratamento antiplaquetário após uma angioplastia coronariana para além de sua indicação inicial. Toda essa evidência pode estar falhando no tocante a mostrar-nos o risco das lesões não responsáveis após um evento coronariano agudo. 

Doctor con tabletas de aspirinas

A terapia antitrombótica potente e prolongada pode reduzir a ocorrência de eventos trombóticos espontâneos (de novo) ademais de diminuir as complicações das lesões responsáveis já tratadas após uma síndrome coronariana aguda. 

Os autores deste trabalho recentemente publicado no JACC examinaram os efeitos de uma potente terapia antiplaquetária com base no tempo e na etiologia dos infartos recorrente, bem como a morte cardiovascular após uma angioplastia por uma síndrome coronariana aguda. 

Neste estudo, denominado TRITON-TIMI 38, foram randomizados 12 844 pacientes cursando uma síndrome coronariana aguda e que receberam pelo menos um stent a prasugrel vs. clopidogrel. Os infartos e a morte cardiovascular foram categorizados como: 1) periprocedimento; 2) trombose do stent definitiva ou provável e; 3) espontâneo (não relacionado com o procedimento). O seguimento médio foi de mais de um ano. 


Leia também: Uma nova molécula para evitar a nefropatia por contraste.


Dos eventos que ocorreram dentro dos 30 dias da randomização 584 estiveram relacionados com o procedimento (69%), 126 se relacionaram com trombose do stent (14,9%) e 136 foram evento espontâneos (16,1%). Após os 30 dias a relação se inverte, com apenas 4,7% dos eventos estando relacionados com o procedimento, 13,5% com trombose do stent e 81,8% com eventos espontâneos. 

O prasugrel reduziu à metade a incidência de infarto e morte cardiovascular relacionada com a trombose do stent (1% vs. 2,1%; p < 0,0001) e também diminuiu significativamente a taxa de eventos espontâneos (3,9% vs. 4,8%; p = 0,012).


Leia também: Infartos com supradesnivelamento do segmento ST nos tempos do COVID-19.


A taxa de sangramentos maiores espontâneos se incrementou, mas não os relacionados com o procedimento. 

Conclusão

A terapia antiplaquetária potente e prolongada (aspirina + prasugrel) reduz os eventos trombóticos espontâneos e a trombose do stent após o tratamento da lesão culpada no contexto de uma síndrome coronariana aguda. Os eventos espontâneos ocorrem em sua maioria após os 30 dias, motivo pelo qual a tendência de reduzir os tempos de dupla antiagregação deve ser cuidadosamente balanceada em cada paciente. 

Título original: Nonculprit Lesion Myocardial Infarction Following Percutaneous Coronary Intervention in Patients With Acute Coronary Syndrome.

Referência: Benjamin M. Scirica et al. J Am Coll Cardiol 2020;75:1095–106.


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