Aspirina ou clopidogrel pós-TAVI: guias e estudos cheios de contradições

Há um mês compartilhamos uma metanálise que colocava a aspirina como a melhor opção de antiagregação após o TAVI em comparação com a dupla antiagregação plaquetária de 3 a 6 meses que sugerem as diretrizes. 

Naquele momento, a recomendação das diretrizes parecia obsoleta. Vários trabalhos tinham começado a se alinhar com a monoterapia como melhor esquema antiagregante após o TAVI. Contudo, à luz dos resultados deste novo trabalho publicado no Circulation, agora a aspirina tampouco aparenta ser a solução definitiva. 

Isso é relevante pois até agora nenhum trabalho tinha colocado em dúvida a aspirina no cenário da antiagregação pós-TAVI. 

De qualquer forma, não necessariamente a última informação publicada é a correta. Este trabalho coloca em evidência que ainda não temos uma ideia clara sobre qual é o melhor esquema antiagregante pós-TAVI. 

O registro OCEAN-TAVI incluiu pacientes que foram submetidos a TAVI entre 2013 e 2017 em vários centros do Japão. No registro foram identificados 829 casos que receberam alta com indicação de aspirina (100 mg) ou clopidogrel (75 mg). 

Os pacientes foram estratificados de acordo com a necessidade de anticoagulação. Utilizou-se o propensity score para ajustar as características basais entre o grupo que recebeu aspirina como monoterapia e o grupo que recebeu somente clopidogrel. 


Leia também: Dupla antiagregação e TAVI: as diretrizes se tornaram obsoletas em vários sentidos.


O desfecho primário foi morte por qualquer causa, morte cardiovascular, sangramento que comprometesse a vida e sangramento maior dentro dos 2 anos pós-procedimento. 

Após o ajuste, ficaram 196 pacientes (98 com aspirina e 98 com clopidogrel) que não precisaram de anticoagulação e 314 pacientes (157 com aspirina e 157 com clopidogrel) que sim, precisaram de antiagregação, principalmente por fibrilação atrial. 

A mortalidade por qualquer causa foi similar entre os pacientes que precisaram de anticoagulação e os que não precisaram, sem importar o antiagregante que receberam (com anticoagulação: 17,5% do grupo aspirina vs. 11,1% do grupo clopidogrel; p = 0,07. Sem anticoagulação: 29,6% do grupo aspirina vs. 20,1% do grupo clopidogrel; p = 0,15)


Leia também: Guias americanos e europeus de fibrilação atrial: em que se diferenciam?


O cenário foi completamente outro quando se analisou a mortalidade cardiovascular. Ao analisar dito desfecho o clopidogrel teve uma clara vantagem em 2 anos de seguimento, sem importar a necessidade de anticoagulação (com anticoagulação: 8,5% do grupo aspirina vs. 2,7% do grupo clopidogrel; p = 0,03. Sem anticoagulação: 18% do grupo aspirina vs. 5,2% do grupo clopidogrel; p = 0,02). 

Conclusão

De acordo com este trabalho, a monoterapia de clopidogrel se associa a uma menor mortalidade cardiovascular em comparação com a aspirina em 2 anos de seguimento após o TAVI e sem importar a necessidade de anticoagulação. 

Título original: Aspirin Versus Clopidogrel as Single Antithrombotic Therapy After Transcatheter Aortic Valve Replacement: Insight From the OCEAN-TAVI Registry.

Referência: Yusuke Kobari et al. Circ Cardiovasc Interv. 2021 May;14(5):e010097. doi: 10.1161/CIRCINTERVENTIONS.120.010097.


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