Segurança de TAVR via transcarotídea: anestesia local ou geral?

Gentileza do Dr. Agustín Vecchia.

Segurança de TAVR via transcarotídea anestesiaOs inícios do implante percutâneo da valva aórtica (TAVR) foram marcados por altas taxas de complicações vasculares devido ao elevado diâmetro dos dispositivos usados (por exemplo, 22-24 Fr nos primeiros PARTNER) e à menor experiência dos operadores, que costuma acompanhar os primeiros tempos de toda nova prática.

 

O seguinte trabalho mostra o grande avanço que se deu nos últimos anos no campo do TAVR, a grande experiência adquirida por alguns grupos, as melhoras na tecnologia aplicada às válvulas e como isto repercutiu positivamente nos desfechos.

 

O objetivo do presente trabalho foi avaliar a segurança e a eficácia do TAVR por via transcarotídea (abordagem cirúrgica no nível da carótida primitiva) e comparar duas estratégias de anestesia:

  • Uma estratégia minimamente invasiva com sedação consciente;
  • Uma estratégia com anestesia geral.

 

Foram analisados 174 pacientes submetidos ao procedimento entre 2009 e 2014 em dois centros da França. Todos os pacientes foram descartados para a via femoral por apresentarem doença vascular periférica severa.

 

Em 52 (29,8%) pacientes o procedimento foi realizado de maneira minimamente invasiva com sedação consciente e em 122 (70,1%) utilizou-se anestesia geral.

 

Os desfechos após um ano foram disponibilizados para todos os pacientes e utilizou-se o consenso do VARC-2 (Valve Academic Research Consortium-2) para a definição dos desfechos.

 

Realizou-se tomografia multicorte com avaliação de artérias carótidas, subclávias e vertebrais juntamente com uma ressonância magnética nuclear para avaliar as colaterais no nível do polígono de Willis em todos os pacientes.

 

Durante o procedimento foi monitorada a saturação cerebral de oxigênio utilizando-se espectrometria infravermelha (Equanox 7600, Nonnin Medical Inc., North Plymouth).

 

Resultados

  • O procedimento e o deslocamento da válvula foram bem-sucedidos em 100% dos pacientes;
  • A mortalidade em 30 dias foi de 7,4% (13 pacientes);
  • A mortalidade por todas as causas após um ano foi de 12,6% (n = 22);
  • A mortalidade por causa cardiovascular após um ano foi de 8,0% (n = 14);
  • Ao dividir os pacientes de acordo com o tipo de anestesia utilizada, não foram observadas diferenças na mortalidade após 30 dias (anestesia geral 7,3% vs. minimamente invasivo 7,6%; p = 0,94) nem após um ano (anestesia geral 13,9% vs. minimamente invasiva 9,6%; p = 0,43).
  • Tampouco houve diferenças na eficácia clínica após um mês (85,2% vs. 94,2%; p = 0,09) ou nos desfechos de segurança (77,8% vs. 86,5%; p = 0,18).
  • No grupo de anestesia geral foram observados 10 eventos cerebrovasculares (5,7%): 4 AVC (2,2%) e 6 acidentes isquêmicos transitórios (3,4%). Não foram observados eventos cerebrovasculares no grupo minimamente invasivo (p < 0,001).

 

Conclusão

Os autores concluem que o TAVR é seguro utilizando-se ambos os métodos de anestesia e que foi observado um menor número de eventos cerebrovasculares no grupo de anestesia geral.

 

Comentário editorial

Embora na atualidade os novos sistemas de TAVR permitam sua inserção através de cateteres de 14 Fr, conseguindo com isso aumentar muito o número de procedimentos realizados por via transfemoral, a necessidade de acessos alternativos continuará existindo sempre. Esta é a maior série publicada até a data de acesso transcarotídeo, ficando demonstrada sua segurança e eficácia.

 

É necessário considerar que os pacientes, por um lado, foram submetidos a um estudo extra de screening, caro como a ressonância cerebral, mas por outro lado, conseguiu-se reduzir quase à metade os dias de internação: 11,3 vs. 6 dias (p < 0,001).

 

No que diz respeito à redução das taxas de AVC ao utilizar sedação em lugar de anestesia, os autores cogitam que este fenômeno poderia ser secundário à curva de aprendizagem do grupo já que os primeiros TAVR transcarotídeos foram realizados com anestesia geral e, nos procedimentos mais recentes e com operadores mais experientes, mesmo utilizando-se anestesia geral não foram observados eventos cerebrovasculares.

 

Outro motivo é o menor uso, na atualidade, de pré-dilatação com balão pré-TAVR. E, finalmente e nem por isso menos importante, o papel da sorte. Sobretudo, levando-se em consideração que o número de eventos é pequeno. Teria sido interessante uma análise temporal para tentar descartar que a diminuição dos eventos não tenha relação com outros fatores.

 

Gentileza do Dr. Agustín Vecchia. Hospital Alemão, Buenos Aires, Argentina.

 

Título original: Transcarotid Transcatheter Aortic Valve Replacement. General or Local Anesthesia

Referência: Debry N et al. J Am Coll Cardiol Intv. 2016;9(20):2113-2120.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Bloqueio do ramo esquerdo após o TAVI, qual é o seu impacto?

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. O bloqueio do ramo esquerdo (BCRE) é uma complicação frequente após o implante percutâneo da valva aórtica (TAVI), que...

Análise prospectiva da viabilidade do sistema PASCAL para a reparação mitral transcateter: registro OneForAll

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez A reparação mitral transcateter borda a bora (M-TEER) é uma opção eficaz para pacientes com insuficiência mitral severa e...

Experiencia Multicêntrica com Ecocardiografia Intracardíaca 3D para Guiar Procedimentos Cardíacos Intervencionistas

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. As técnicas de imagem desempenham um papel crucial nos procedimentos cardíacos intervencionistas. A ecocardiografia intracardíaca (ICE) se apresenta como...

Estudo histopatológico das próteses aórticas transcateter autoexpansíveis e aumento da espessura valvar com hipoatenuação

Gentileza do Dr. Juan Manuel Pérez. Apesar de contar com dados de acompanhamento de longo prazo sobre o implante percutâneo da valva aórtica (TAVI), a...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

ACC 2025 | FAME 3: Angioplastia guiada por FFR vs. cirurgia de revascularização. Resultados finais em seguimento de 5 anos

Em anos anteriores os estudos que compararam a angioplastia coronariana (PCI) com a cirurgia de revascularização miocárdica (CABG) mostraram uma menor quantidade de eventos...

ACC 2025 | FLAVOUR II: Angioplastia guiada por FFR derivado de angiografia vs. angioplastia com IVUS

A avaliação fisiológica é eficaz na tomada de decisões para a realização de uma angioplastia coronariana (PCI). No entanto, apesar da evidência disponível, seu...

ACC 2025 | API-CAT: Anticoagulação estendida com dose reduzida vs. plena de Apixabana em pacientes com DTV associada ao câncer

O risco de recorrência da doença tromboembólica venosa (DTV) associada ao câncer diminui com o tempo, ao passo que risco de sangramento persiste. Atualmente...