HIV e doença vascular: uma associação que começamos a reconhecer

O efeito do vírus da imunodeficiência humana (HIV) no desenvolvimento da doença vascular (especificamente da doença vascular periférica) ainda não está completamente dilucidado. É o vírus em si o responsável pela doença vascular ou esta é na verdade uma consequência da dislipidemia que têm como efeito muitos antirretrovirais?

Este trabalho investigou o efeito da infecção por HIV sobre a doença vascular periférica após o ajuste por todos os fatores de risco tradicionais em uma grande coorte de pacientes HIV+ e comparou-os com uma população com características basais similares, mas HIV negativa.

 

Dentre os 91.953 pacientes que participaram com uma média de seguimento de 9 anos, observaram-se 7.708 eventos vasculares periféricos. A taxa de eventos por cada 1.000 pacientes/ano foi maior entre os pacientes HIV+ (11,9 VS. 9,9%).


Leia também: MITRA-FR: Reparação percutânea ou tratamento médico para a insuficiência mitral secundária.


Após a realização do ajuste por múltiplos fatores demográficos, fatores de risco cardiovasculares tradicionais e outras covariáveis, observou-se que os pacientes HIV+ têm maior incidência de eventos vasculares periféricos, diferença que alcançou significância (HR 1,19, IC 95%: 1,13 a 1,25).

 

O risco de eventos observado foi uma vez e meia maior nos pacientes com mais de 500 cópias virais/ml e de quase o dobro naqueles pacientes com uma contagem de CD4 < 200/mm³, embora este dado não tenha afetado a taxa de amputações. Ao contrário, os pacientes HIV+ mas com carga viral indetectável e uma contagem de CD4 ≥ 500/mm³ tiveram uma taxa de eventos idêntica aos pacientes HIV negativos.


Leia também: A OCT nos dá pistas da fisiopatologia por trás da trombose muito tardia de um stent.


A mortalidade após um evento vascular foi maior para além da infecção por HIV.

 

Conclusão

A infecção por HIV se associou a um incremento de 19% do risco de padecer doença vascular periférica, para além do que poderia ser explicado pelos fatores de risco tradicionais. Para aqueles pacientes com uma contagem de CDK abaixo de 200/mm³ o risco foi de quase o dobro, embora o mesmo não seja verdadeiro para aqueles pacientes que se encontravam com a doença bem controlada, já que neste último caso o risco foi similar ao dos pacientes HIV negativos.

 

Título original: Association of Human Immunodeficiency Virus Infection and Risk of Peripheral Artery Disease.

Referência: Joshua A. Beckman et al. Circulation. 2018;138:255–265.

 

2018-09-10 HIV-y-vascular-periferica.full


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Guia AHA/ACC 2026 sobre o manejo do TEP

O guia ACC/AHA 2026 para o manejo do tromboembolismo pulmonar (TEP) agudo introduz uma mudança conceitual ao substituir a classificação tradicional “de acordo com...

Avaliação com FFR para a seleção de pacientes hipertensos que se beneficiam do stenting renal

A estenose aterosclerótica da artéria renal (EAAR) representa uma das principais causas de hipertensão (HTA) secundária e se associa com um maior risco de...

Arterialização transcateter de veias profundas na isquemia crítica sem opções de revascularização: evidência de uma revisão sistemática e metanálise

A isquemia crônica crítica de membros inferiores em pacientes sem opções convencionais de revascularização representa um dos cenários mais complexos no contexto da doença...

Duração da cessação do tabagismo e risco de amputação após a revascularização na isquemia crítica de membros inferiores

A isquemia de membros inferiores se associa a uma elevada taxa de amputação e mortalidade. Embora a cessação do tabagismo melhore os resultados após...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

CHIP LATAM | Capítulo 2 – México: Workshop de Complicações

A Sociedade Latino-Americana de Cardiologia Intervencionista convida toda a comunidade médica para participar de um workshop virtual sobre complicações organizado pela área de Intervenções...

Angioplastia coronariana guiada por OCT e IVUS na síndrome coronariana aguda: resultados clínicos a longo prazo

A angioplastia coronariana percutânea (ATC) em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) reduziu a mortalidade na fase aguda. No entanto, a SCA recorrente e...

Resultados de seguimento de um ano do ENCIRCLE: substituição mitral percutânea em pacientes não candidatos a cirurgia nem a TEER

A insuficiência mitral (IM) sintomática em pacientes não candidatos a cirurgia nem a reparo transcateter borda a borda (TEER) continua representando um cenário de...