A diabetes poderia orientar a decisão entre o ticagrelor e o prasugrel

Segundo uma recente análise do ISAR-REACT 5, publicado no JACC Intv, a diabetes impacta no efeito relativo do ticagrelor e do prasugrel em pacientes cursando uma síndrome coronariana aguda. 

diabetes

Da mesma forma que ocorreu com os resultados do trabalho principal, esta subanálise do ISAR-REACT 5 mostrou que o desfecho combinado de morte, infarto ou AVC em um ano é maior nos pacientes tratados com ticagrelor vs. prasugrel (8,6% ticagrelor vs. 5,2% prasugrel: HR 1,70; IC 95% 1,29-2,24). A novidade é que esse achado só é válido para a população NÃO diabética. 

Os pacientes com diagnóstico de diabetes têm uma maior taxa de eventos, mas não observam diferenças entre as duas drogas (11,2% ticagrelor vs. 13,0% prasugrel; HR 0,84; IC 95% 0,58-1,24). O diagnóstico de diabetes impacta significativamente nos efeitos dos antiagregantes (p = 0,0035 para a interação).

Os sangramentos não foram afetados pelo diagnóstico de diabetes tanto para ticagrelor como para prasugrel. 


Leia também: ACC 2020 Virtual | Subanálise do COMPASS: a diabetes aumenta o benefício da rivaroxabana mais AAS.


Os resultados do ISAR-REACT 5 surpreenderam inclusive os pesquisadores, que especulavam com a superioridade do ticagrelor. Surgem muitas perguntas e por enquanto poucas respostas. 

Por que a suposta vantagem do prasugrel se dilui nos pacientes diabéticos?

Isso poderia ser explicado pelo estado de hiperatividade plaquetária nos pacientes diabéticos e por uma diminuição dos metabolitos ativos do prasugrel. O ticagrelor, que não requer passos metabólicos, poderia compensar o terreno perdido e mostrar resultados similares ao prasugrel na população diabética. 


Leia também: Doença coronariana em diabetes: os pacientes diabéticos têm uma progressão de placas muito maior.


Em relação aos componentes individuais do desfecho primário não foram observadas diferenças entre o ticagrelor e o prasugrel na população com diabetes. Isso incluiu a taxa de trombose do stent. 

Por outro lado, na coorte NÃO diabética, o prasugrel mostrou um benefício numérico em termos de mortalidade (3,0% vs. 4,1%; p = 0,077), um benefício significativo em infartos (2,1% vs. 4,6%; p < 0,0001) e um benefício também significativo em trombose do stent (0,3% vs. 1,0%; p = 0,020).

O desfecho de segurança (sangramento BARC 3 a 5 em um ano) foi similar entre ambas as drogas, tanto na coorte de diabéticos (6,9% vs. 5,5%; p = 0,425) como na de não diabéticos (5,2% vs. 4,6%; p = 0,500).


Leia também: A diabetes silente é o novo inimigo oculto.


Talvez seja o momento de que voltemos a nos perguntar sobre a estratégia correta lembrando-nos de que os estudos que marcaram a superioridade do ticagrelor (PLATO) e do prasugrel (TRITON-TIMI 38) vs. o clopidogrel já têm mais de 10 anos. 

Os pacientes com síndromes agudas incluídos nesses trabalhos receberam stents convencionais ou farmacológicos de 1ª geração que já não existem. 

Se hoje fossem realizados estudos como os mencionados, deveríamos esperar ao menos uma diferença significativa em termos de trombose do stent com relação aos resultados aos quais se chegou em seu momento. 

2238-full

Título original: Ticagrelor and prasugrel in patients with acute coronary syndromes and diabetes mellitus.

Referência: Ndrepepa G et al. J Am Coll Cardiol Intv. 2020;13:2238-2247.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

ACVC 2026 | CELEBRATE: utilização de zalunfiban pré-hospitalar em SCACEST

A otimização do tratamento antitrombótico na fase pré-hospitalar da síndrome coronariana aguda com elevação do ST (SCACEST) continua sendo um desafio devido à demora...

ACVC 2026 | Objetivos de PAM em choque cardiogênico pós-OHCA (subestudo BOX)

O manejo hemodinâmico do choque cardiogênico posterior a parada cardíaca de origem isquêmica (OHCA-AMICS) continua sendo uma área a ser resolvida, particularmente no que...

Fármacos para o tratamento do no-reflow durante a angioplastia

O fenômeno de no-reflow é uma das complicações mais frustrantes da angioplastia primária (pPCI) e expressa a persistência do dano microvascular que, a médio...

Aterectomia rotacional e seus segredos técnicos: utilização de guia floppy ou extra-support (ES)

A aterectomia rotacional (AR) continua sendo uma ferramenta muito útil no manejo da calcificação coronariana severa. No entanto, muitos de seus detalhes técnicos se...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

ACC 2026: Resultados do estudo SURViV – apresentação e análise exclusiva com o Dr. Dimytri Siqueira

Após a apresentação do estudo SURViV nas sessões Late Breaking Clinical Trials do Congresso do American College of Cardiology, o Dr. Dimytri Siqueira (Brasil),...

ACVC 2026 | CELEBRATE: utilização de zalunfiban pré-hospitalar em SCACEST

A otimização do tratamento antitrombótico na fase pré-hospitalar da síndrome coronariana aguda com elevação do ST (SCACEST) continua sendo um desafio devido à demora...

ACVC 2026 | Objetivos de PAM em choque cardiogênico pós-OHCA (subestudo BOX)

O manejo hemodinâmico do choque cardiogênico posterior a parada cardíaca de origem isquêmica (OHCA-AMICS) continua sendo uma área a ser resolvida, particularmente no que...