Quão reais são os efeitos adversos das estatinas? Evidência de ensaios clínicos randomizados

A segurança das estatinas continua sendo motivo de debate, em parte devido à extensa lista de efeitos adversos consignados nas bulas, muitos deles derivados de estudos observacionais. Esta metanálise da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, coordenado pela Universidade de Oxford (Reino Unido), avaliou de maneira sistemática a relação causal entre o uso de estatinas e os eventos adversos listados em dita bulas, utilizando dados individuais provenientes de ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos. 

Foram incluídos 23 ensaios que totalizaram 154.664 pacientes. Nos estudos que compararam estatinas versus placebo (n = 123.940), a idade média dos pacientes foi de 63 ± 9 anos; 72% eram homens, 48% apresentavam doença vascular prévia e o seguimento médio foi de 4,5 anos (RIC 3,1–5,4).

Resultados: estatinas e efeitos adversos: que evidência trazem os ensaios clínicos randomizados?

Dos 66 eventos adversos avaliados, somente quatro mostraram um incremento significativo associado ao uso de estatinas em comparação com o grupo controle: elevação de transaminases hepáticas, alterações na composição urinária e edemas. Em conjunto, não foi observado um aumento significativo nos outros 62 eventos analisados, incluindo deterioração cognitiva, depressão, distúrbios do sono, neuropatia periférica ou doença pulmonar intersticial. 

No tocante aos efeitos musculares, o estudo não os analisou como objetivo principal, já que tinham sido avaliados previamente pela mesma colaboração, tendo sido confirmado que a miopatia clinicamente relevante é pouco frequente, com uma incidência aproximada de 1 caso por cada 10.000 pessoas-ano, e que existe um pequeno aumento absoluto de sintomas musculares e de novos diagnósticos de diabetes, especialmente durante o primeiro ano de tratamento ou em pacientes com predisposição metabólica. 

Leia também: Rolling Stone: registro de utilização de Litotripsia IV vs. Aterectomia em lesões calcificadas complexas.

Foi observada uma relação dose-resposta para as alterações bioquímicas hepáticas, com maior frequência em terapias intensivas (RR: 2,06; IC de 95%: 1,66–2,57). Contudo, dito incremento se limitou principalmente a elevações enzimáticas e não foi acompanhado de um aumento significativo de eventos hepáticos clinicamente graves, como hepatite, insuficiência hepática ou colestase. Ao contrário, não foi identificada uma relação dose-resposta para os edemas nem para as alterações urinárias, o que também questiona sua relevância clínica. 

Conclusão: segurança das estatinas a longo prazo

Em síntese, as estatinas se associam principalmente com pequenas alterações bioquímicas hepáticas e com efeitos musculares e metabólicos já conhecidos, ao passo que a maioria dos eventos adversos listados nas bulas não mostram evidência de causalidade em ensaios clínicos controlados. Os achados aqui relatados reforçam que os benefícios cardiovasculares superam amplamente os riscos e sugerem a necessidade de revisar a informação de segurança nas bulas, com o fim de otimizar a tomada de decisões clínicas. 

Título Original: Assessment of adverse effects attributed to statin therapy in product labels: a meta-analysis of double-blind randomised controlled trials.


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