Oclusão percutânea de forame oval patente em pacientes com trombofilia

O tratamento percutâneo do forame oval patente (FOP) demonstrou reduzir os eventos embólicos em pacientes com acidente vascular cerebral (AVC) criptogênico. Entretanto, a maioria dos estudos randomizados de grande escala não incluíram pacientes com trombofilia, seja hereditária, seja adquirida. Por exemplo, no estudo RESPECT foram excluídos os pacientes com presença de anticorpos antifosfolipídicos (AAF) ou hiper-homocisteinemia , ao passo que no estudo REDUCE foi feito um screening para AAF e foram excluídos os pacientes com indicação de anticoagulação. 

Cierre percutáneo de foramen oval permeable, en pacientes con trombofilia

É importante destacar que a trombofilia é um achado comum em pacientes com AVC criptogênico. Em ausência de outra indicação para a anticoagulação prolongada, a oclusão do FOP poderia ser benéfica para reduzir o risco de AVC ou embolia paradoxal nesses pacientes. No entanto, é importante levar em conta que os pacientes com trombofilia também apresentam um maior risco de complicações relacionadas com o procedimento e um maior risco de eventos trombolíticos, tanto arteriais quanto venosos. De fato, a presença de trombofilia por si só foi associada com uma maior incidência de AVC ou ataques isquêmicos transitório (AIT) depois da oclusão do FOP. 

O objetivo deste estudo foi avaliar as diferenças em termos de eventos entre os pacientes submetidos a oclusão do FOP devido a AVC criptogênico, embolia paradoxal ou trombose venosa profunda (TVP)/tromboembolia pulmonar (TEP) no Hospital Geral de Toronto entre 1999 e 2017. Foram avaliados os desfechos em 30 dias. Os mesmos incluíram internação na unidade de observação e as hospitalizações. Os desfechos de longo prazo abrangeram a presença de AIT, AVC, infarto agudo do miocárdio (IAM), sangramento maior, TVP/TEP, novo procedimento septal e morte. 

Leia também: TAVI em pacientes assintomáticos ou minimamente sintomáticos: Resultados em seguimento de 30 dias.

Foram compilados os dados de 660 pacientes que foram submetidos a oclusão do FOP, sendo que 63% deles foram tratados com o dispositivo Amplatzer. A idade média da população foi de 56,4 anos. Em 97,9% dos casos o tratamento com FOP se deveu a AVC criptogênico, ao passo que no resto dos casos o que motivou o tratamento foi a TVP/TEP. A trombofilia foi diagnosticada em 26% dos casos da coorte e a maioria deles apresentava mutações adquiridas. Em termos gerais, não foram observadas diferenças basais significativas entre os grupos, exceto pela presença de enxaqueca, que foi mais comum nos pacientes com trombofilia (26% vs. 34%; p = 0,04). 

A maioria dos pacientes teve uma estância hospitalar breve e recebeu alta no mesmo dia do procedimento (91,2%). Foram registradas complicações em 2,9% dos casos, que incluíram lesões vasculares (menos de 5 casos), arritmias que requereram tratamento (15 ou mais casos) e embolização do dispositivo (menos de 5 casos). 

Ao analisar os eventos a longo prazo, observou-se que 19,5% dos pacientes teve ao menos uma visita à unidade de observação. Durante o tratamento, a dupla antiagregação plaquetária (DAPT) foi prescrita em 61% dos pacientes com trombofilia e em 68,8% dos pacientes sem trombofilia. O seguimento médio da coorte foi de 11,6 anos e os eventos mais comuns foram a fibrilação atrial (1,0 por 100 passos/ano; IC 95%: 0,8-1,2), seguida de novo AVC/AIT (0,8 por 100 pessoas/ano; IC 95%: 0,6-1,1). 

Leia também: Há diferenças na evolução das bifurcações coronarianas entre mulheres e homens?

Não foram observadas diferença significativas em nenhum dos eventos adversos estudados entre os pacientes com trombofilia e sem trombofilia (teste de Log-Rank: p = 0,4924).

CONCLUSÕES

Este estudo observacional, que incluiu um quarto de pacientes com trombofilia, não encontrou diferenças significativas em termos da recorrência de eventos cerebrovasculares entre os pacientes com e sem trombofilia a longo prazo. 

Estes resultados respaldam a indicação e o potencial uso da oclusão do FOP em pacientes com trombofilia, apesar de eles terem sido excluídos dos grandes estudos randomizados. 

Dr. Omar Tupayachi

Dr. Omar Tupayachi.
Membro do Conselho Editorial da SOLACI.org.

Título Original: Short- and Long-Term Outcomes in Patients With Thrombophilia Undergoing Transcatheter Closure of Patent Foramen Ovale.

Referência: Abrahamyan, Lusine et al. “Short- and Long-Term Outcomes in Patients With Thrombophilia Undergoing Transcatheter Closure of Patent Foramen Ovale.” JACC. Cardiovascular interventions vol. 16,11 (2023): 1360-1366. doi:10.1016/j.jcin.2023.04.027.


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