Dispositivos de assistência ventricular contemporâneos: consequências hemodinâmicas

Gentileza do Dr. Agustín Vecchia.

Proliferan los dispositivos para el reemplazo valvular mitral por catéterApesar dos avanços tecnológicos atuais e da melhora nos tempos de reperfusão no infarto, o choque cardiogênico continua sendo uma complicação relativamente frequente com uma mortalidade que beira os 50%. A necessidade de aumentar o gasto cardíaco nestes pacientes e o fato de o popular balão de contrapulsação intra-aórtico não ter podido melhorar os desfechos dos pacientes em estudos randomizados renovou o interesse no desenvolvimento de novas tecnologias nesse campo. 

 

O seguinte trabalho compara dois dos dispositivos de assistência ventricular mais utilizados e avalia seu desempenho. Para isso, foram utilizados 7 porcos Yorkshire (peso médio: 76 ± 2 kg; n = 7), nos quais se colocou um cateter de pressão-volume no VE e se ocluiu com balão a artéria circunflexa por duas horas para gerar o modelo de infarto com posterior reperfusão. Foram colocados de maneira randomizada dispositivos Impella CP (ICP) e TandemHeart (TH) com fluxos comparáveis e foram medidos parâmetros hemodinâmicos e índices de performance ventricular 30 minutos após a reperfusão e durante a assistência.

 

O infarto induzido produziu um desvio à direita das curvas de pressão-volume e aumentou significativamente as pressões de fim de diástole do VE (de 9 ± 2 mm Hg a 15 ± 2 mmHg; p = 0,04).

 

Após a reperfusão, ambos os dispositivos conseguiram manter a pressão aórtica, deslocaram as curvas de pressão-volume para a esquerda e diminuíram as PFDVE (ICP vs. TandemHeart; 11 ± 1 mmHg vs. 7 ± 4 mmHg; p = 0,04).

 

Somente o TandemHeart conseguiu reduções significativas em:

  • volume sistólico (de 75 ± 7 ml a 39 ± 7 ml; p < 0,01),
  • dP/dtmax (de 988 ± 77 mmHg/s a 626 ± 42 mmHg/s; p < 0.01),
  • trabalho sistólico (“stroke work”) (de 0,70 ± 0,03 J a 0,26 ± 0,05 J; p < 0,01),
  • área da curva pressão-volume (de 0,95 ± 0,11 J a 0,47 ± 0,10 J; p < 0,01),
  • pendente de trabalho sistólico recrutável por pré-carga “pre-load-recruitable stroke work” (de 41.7 ± 2.8 J/ml a 30.6 ± 3.9 J/ml; p = 0.05).

 

Os autores concluem que considerando fluxos similares, o TandemHeart produz uma maior diminuição da pré-carga do VE, do stroke volume e da contratilidade miocárdica que o Impella CP. As reduções observadas nos índices de performance ventricular independentes de carga (pre-load-recruitable stroke work) pressupõem efeitos favoráveis no balanço miocárdico de oxigênio e promovem a realização de mais estudos utilizando o TandemHeart como assistência no infarto.

 

Comentário editorial

 

O seguinte trabalho é um dos poucos que comparam dispositivos de assistência ventricular entre si e seus achados são interessantes já que proporcionam informação contrária a publicações prévias (Novel Percutaneous Cardiac Assist Devices, Circulation 2011), nas quais se via favorecido o Impella CP em simulações computadorizadas. Neste estudo in vivo, tanto a extração de sangue da aurícula esquerda por parte do TandemHeart quanto a extração de sangue do VE do Impella reduzem a pré-carga e mantêm a pressão aórtica. No entanto, somente o primeiro conseguiu reduzir o trabalho sistólico e melhorar a contratilidade e o consumo miocárdico de oxigênio.

 

Uma das diferenças com a prática é que nestes modelos animais não foram observados estudos de baixo fluxo. Em outras palavras, os animais não se encontravam em “choque cardiogênico”, cenário no qual o desempenho de cada dispositivo particular poderia variar. Como antecedentes, Kapur e colaboradores publicaram em 2015 o primeiro trabalho comparando diretamente esses mesmos dispositivos em modelos animais e, embora o mesmo tenha sido menor que o presente, os resultados foram similares.

 

Gentileza do Dr. Agustín Vecchia. Hospital Alemão, Buenos Aires, Argentina.

 

Título original: Comparative Hemodynamic Effects of Contemporary Percutaneous Mechanical Circulatory Support Devices in a Porcine Model of Acute Myocardial Infarction.

Autores: Brian R. Weil, PHD, Filip Konecny, DVM, PHD, Gen Suzuki, MD, PHD, Vijay Iyer, MD, PHD, John M. Canty, JR, MD.

Referência: J Am Coll Cardiol Intv. 2016.

Doi: 10.1016/j.jcin.2016.08.037.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

É necessário usar o IVUS de forma rotineira na angioplastia do tronco da coronária esquerda?

A angioplastia do tronco da coronária esquerda não protegido é um procedimento de grande complexidade devido ao amplo território miocárdico em risco e às...

Registros Dual-Prep: aterectomia e IVL em calcificação coronariana severa

A calcificação coronariana severa continua sendo um dos cenários mais complexos da angioplastia coronariana. Embora a aterectomia rotacional (AR) ou orbital e a litotripsia...

Heparina pré-hospitalar no SCACEST: uma estratégia segura que proporciona maior reperfusão precoce

A reperfusão precoce continua sendo o principal determinante prognóstico nos pacientes com infarto agudo do miocárdio com elevação do ST (SCACEST). Embora a angioplastia...

Rupturas de placa en artérias não culpadas: seguimento com imagens intravasculares

A ruptura de placa continua sendo um dos mecanismos fisiopatológicos mais importantes nas síndromes coronarianas agudas. No entanto, nem todas as rupturas se manifestam...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Técnica UNICORN para prevenir a obstrução coronariana durante o TAVI: resultados iniciais de um estudo multicêntrico

A obstrução coronariana é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente catastrófica, do implante transcateter da valva aórtica (TAVI), especialmente em procedimentos valve-in-valve, TAV-in-TAV ou...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

Supera vs. Eluvia em lesões femorpoplíteas calcificadas com calcificação severa

A calcificação seveera continua sendo um dos principais preditores de reestenose e de necessidade de novas revascularizações após o tratamento endovascular da doença femoropoplítea....