Os sistemas de proteção diminuem a incidência de AVC e a mortalidade na angioplastia carotídea.

Até agora os maiores estudos randomizados e controlados se dedicaram quase que exclusivamente a comparar a eficácia e a segurança da angioplastia carotídea vs. a endarterectomia. Praticamente todos deixaram a critério dos operadores a escolha dos dispositivos a utilizar durante o procedimento, motivo pelo qual contamos com pouca informação direta que nos ajude a decidir sobre que sistema de proteção cerebral utilizar, o design e o material do stent, a necessidade de monitoramento neurofisiológico intraprocedimento e o tipo de antiagregação plaquetária a adotar.

Os sistemas de proteção diminuem a incidência de AVC e a mortalidade na angioplastia carotídea.

O objetivo deste estudo foi analisar a associação entre as diferentes variáveis intra e periangioplastia carotídea e a taxa de AVC e morte intra-hospitalar.

 

Foram incluídos um total de 13.086 pacientes, tanto assintomáticos (63,9%) como sintomáticos, que receberam angioplastia carotídea.


 

Leia tambem: “Estudio SENTINEL: Protección cerebral durante el TAVI”.


 

Analisaram-se as seguintes variáveis: o design do stent, o material do stent, o monitoramento neurofisiológico, a medicação antiagregante e o uso de sistema de proteção cerebral. O desfecho primário foi a taxa de AVC ou morte intra-hospitalar.

 

O desfecho primário ocorreu em 2,4% da população (1,7% em assintomáticos e 3,7% em sintomáticos).

 

A análise multivariada mostrou uma associação independente entre o uso de sistema de proteção cerebral e uma menor taxa de AVC e morte intra-hospitalar (RR: 0,65; IC 95%: 0,50 a 0,85), AVC maior ou morte (RR: 0,60; IC 95%: 0,43 a 0,84) e AVC (RR: 0,57; IC 95%: 0,43 a 0,77). Ao analisar somente a morte, não se observou associação entre este evento e o uso de sistema de proteção cerebral (RR: 0,78; 95% CI: 0,46 a 1,35).


 

Leia tambem: La endarterectomía precoz parece superior a la angioplastia carotidea en pacientes sintomáticos”.


 

Não se observou associação significativa entre o design do stent, o material do stent, o monitoramento neurofisiológico ou a medicação antiplaquetária e eventos como AVC ou morte.

 

Conclusão

O uso de sistema de proteção cerebral foi a única variável técnica do procedimento de angioplastia carotídea que se associou a uma menor taxa de AVC e morte intra-hospitalar.

 

Comentário editorial

A evidência indireta e retrospectiva que existe somada à racionalidade em uso dos sistemas de proteção cerebral durante a angioplastia carotídea fez como que não se realizassem estudos randomizados que testassem a utilidade desses dispositivos. Simplesmente os adotamos sem demasiadas perguntas. Este trabalho com mais de 13.000 pacientes é o de maior tamanho que apoia a ideia de utilizar sempre sistemas de proteção cerebral.

 

Com relação ao design do stent, neste trabalho se observou uma tendência a menor taxa de eventos com stents com células fechadas ainda que com um amplo intervalo de confiança. Há evidência a favor e contra ambos os designs e, além disso, nenhum estudo considerou parâmetros como a morfologia da placa ou a anatomia dos vasos. O mais provável é que diferentes pacientes se beneficiem com diferentes designs (por exemplo, células fechadas para artérias tortuosas ou células abertas para placas moles e instáveis).

 

O material do stent (nitinol ou aço inoxidável) não se associou a eventos.

 

A medicação antiplaquetária também não se associou a eventos, fato que causa surpresa e suspeita. Isso poderia ser facilmente explicado pelo fato de somente 2% dos pacientes não terem recebido antiplaquetários. A conclusão é que sempre vamos indicar dupla antiagregação plaquetária. O monitoramento neurofisiológico mostrou uma tendência a maior taxa de AVC e morte mas isso tem um claro viés: a indicação esteve a critério dos operadores. É muito provável que a indicação tenha sido feita para pacientes com suspeita de maior risco.

 

Título original: The Use of Embolic Protection Devices Is Associated With a Lower Stroke and Death Rate After Carotid Stenting.

Referência: Christoph Knappich et al. J Am Coll Cardiol Intv 2017;10:1257–65.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Stents eluidores de fármacos em doença arterial periférica: quando utilizá-los?

Os stents periféricos eluidores de fármacos transformaram o tratamento da doença arterial periférica ao reduzir as taxas de reestenose e a necessidade de novas...

SCAI 2026 | Arterialização de veias profundas em pacientes com isquemia crítica de membros inferiores sem opção convencional

A isquemia crítica de membros inferiores (ICMI) representa um dos estágios mais avançados da doença arterial periférica (DAP). Em uma proporção significativa de pacientes,...

C-TRACT: terapia endovascular na síndrome pós-trombótica por obstrução ilíaca

A síndrome pós-trombótica (SPT) é uma das sequelas mais limitantes após uma trombose venosa profunda (TVP) proximal. Manifesta-se clinicamente como dor crônica, edema, alterações...

Embolização com coils de artérias segmentares como estratégia de proteção medular prévia à recuperação endovascular complexa de aorta toracoabdominal

A isquemia medular continua sendo uma das complicações mais devastadoras na recuperação de aneurismas toracoabdominais, com incidência de até 20-30% em reparações extensas. Nesse...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Obstrução coronariana no TAVI: um novo índice volumétrico a ser considerado

A obstrução coronariana durante o TAVI é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente devastadora, especialmente em procedimentos valve-in-valve, em anatomias com seios de Valsalva...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

EARLY TAVR: impacto da idade nos resultados do TAVI precoce em pacientes assintomáticos

A estenose aórtica severa assintomática representa um desafio clínico cada vez mais frequente. Embora as diretrizes recomendem intervir quando aparecem sintomas ou deterioração da...