Válvulas bicúspides Sievers Tipo 1: qual utilizar?

Um dos principais desafios atuais do TAVI são as valvas bicúspides (BAV). Isso se observa devido à sua complexidade anatômica, calcificação, presença de rafe, dilatação da aorta e calcificação associada, anéis grandes e o tipo de BAV de acordo com a calcificação de Sievers. 

Diversos estudos mostraram resultados inconsistentes, principalmente porque foram realizados com válvulas de primeira geração e com menor experiência por parte dos operadores em comparação com as capacidades atuais, que incluem dispositivos mais avançados e mais bem adaptados para ditos casos. 

Foi levado a cabo um registro observacional, retrospectivo, multicêntrico e internacional entre 2016 e 2023, que incluiu 955 pacientes com BAV tipo Sievers 1, definido mediante angioTAC. 

As válvulas usadas foram a balão-expansível (BEV), utilizada em 421 pacientes (44%), e a autoexpansível (SEV), escolhidas segundo o critério do operador. 

O desfecho primário (DP) foi uma combinação de morte por qualquer causa, eventos neurológicos e readmissões hospitalares por insuficiência cardíaca, de acordo com os critérios VAC-3 no acompanhamento a longo prazo. 

Pelo fato de os grupos terem sido heterogêneos, fez-se uma análise com propensity score matching, resultando em 301 pacientes em cada grupo. 

Leia também: AHA 2024 – BPROAD.

A idade média dos pacientes foi de 78 anos, com um STS de 2,5%. 63% eram homens, 70% apresentavam hipertensão, 18% diabetes, 6% marca-passo prévio, 35% doença coronariana, 26% fibrilação atrial, 8% doença vascular periférica e 17% DPOC. A filtração glomerular média foi de 65 ml/min/m².

No ECG, 17% dos pacientes apresentaram bloqueio atrioventricular de primeiro grau, 8% bloqueio do ramo direito e 8% bloqueio do ramo esquerdo. 

A fração de ejeção estava conservada, com uma AVAO de 0,7 cm² e um gradiente médio de 47 mmHg.

Nas tomografias não foram observadas diferenças na assimetria, localização da rafe, diâmetro ou área do anel nem nas calcificações. 

Leia também: AHA 2024 | SUMMIT.

O sucesso técnico do implante foi similar entre os dois grupos (95%).

Em 30 dias, não houve diferenças em termos de mortalidade por qualquer causa (1% em ambos os grupos; p = 0,928) nem de eventos neurológicos (3,5% vs. 3,4%; p = 0,721). No entanto, a necessidade de marca-passo foi maior no grupo SEV (18,2% vs. 9,1%, p = 0,002), do mesmo modo que a presença de regurgitação paravalvar moderada ou maior (8,8% vs. 1,7%, p = 0,001). Por outro lado, as BEV apresentaram um maior desajuste protético (5,4% vs. 1,7%, p = 0,045). A AVAO foi maior nas SEV e o gradiente médio foi menor. Não foram observadas diferenças significativas em termos de eventos hemorrágicos. 

O acompanhamento médio foi de 1,3 anos (intervalo: 0,6 a 4 anos). Não foram observadas diferenças no DP (15,7% vs. 20,3%; HR: 0,75; IC 95%: 0,49-1,16; p = 0,200) entre BEV e SEV. Tampouco houve diferenças significativas em termos de mortalidade por qualquer causa (10,8% vs. 14,8%; p = 0,372), mortalidade cardiovascular (4,9% vs. 6,4%; p = 0,491), eventos neurológicos (4,5% vs. 5,1%; p = 0,442) ou re-hospitalizações por insuficiência cardíaca (2,4% vs. 2,7%; p = 0,844).

Conclusão

As válvulas BEV e SEV de atual geração apresentam um sucesso técnico e eficácia similares a médio prazo no tratamento das valvas bicúspides tipo Sievers 1. Comparadas com as SEV, as BEV se associaram com menor necessidade de marca-passo definitivo e menos regurgitação paravalvar moderada ou maior, embora tenham apresentado um maior mismatch protético. 

Título Original: Balloon-Expandable vs Self-Expanding Valves for Transcatheter Treatment of Sievers Type 1 Bicuspid Aortic Stenosis

Referência: Andrea Buono, et al. ARTICLE IN PRESS.  JACC Cardiovasc Interv. 2024. 


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Dr. Carlos Fava
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