Pré-tratamento com DAPT em síndromes coronarianas agudas: continua sendo um debate não resolvido?

Na síndrome coronariana aguda (SCA), a terapia antiplaquetária dual (DAPT) representa um pilar fundamental após a intervenção mediante angioplastia coronariana percutânea (PCI), ao prevenir a trombose do stent e a recorrência do infarto agudo do miocárdio (IAM). Contudo, o benefício clínico do “preloading” ou pré-tratamento com aspirina e inibidores do receptor P2Y12 continua sendo motivo de controvérsia, e os guias europeus desaconselham seu uso em pacientes com SCA sem elevação do segmento ST (SCASEST). 

O objetivo do estudo realizado por Goh et al. foi avaliar a prevalência do pré-tratamento com DAPT e seus resultados clínicos em uma coorte contemporânea de pacientes de Victoria, Austrália, incluídos no registro Victorian Cardiac Outcomes Registry (VCOR) entre 2014 e 2021.

Foram analisados 42.453 procedimentos de PCI realizados por SCA, observando-se que 79% dos pacientes (n = 33.520) receberam DAPT prévia à intervenção. Os pacientes que receberam pré-tratamento eram, em geral, mais jovens e apresentavam menor carga de comorbidades, como doença vascular periférica, doença cerebrovascular, disfunção renal e antecedentes de cirurgia de revascularização. O antiagregante mais utilizado foi o ticagrelor em comparação com os inibidores tienopiridínicos (59,5% vs. 23,4%).

Na análise crua, o grupo que realizou pré-tratamento apresentou uma menor mortalidade intra-hospitalar (2,6% vs. 5,6%; p < 0,001) e em 30 dias (3,3% vs. 6,4%; p < 0,001), bem como uma menor incidência de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em 30 dias (5,5% vs. 8,8%; p < 0,001) e uma menor taxa de sangramento maior (1,0% vs. 1,7%; p < 0,001). Contudo, depois do ajuste das variáveis mediante análise multivariada, não foram observadas diferenças significativas na mortalidade total, MACE nem trombose do stent. 

O pré-tratamento se associou, de forma independente, com uma redução da incidência de sangramento maior em 30 dias (OR 0.79; IC95%: 0.65–0.96; p=0.02), particularmente no subgrupo de SCASEST. Na análise exploratória, observou-se que o uso de tienopiridinas poderia se associar a uma menor taxa de MACE em comparação com o ticagrelor (OR 0.81; IC95%: 0.70–0.94; p=0.006).

Leia também: Gradientes pós-TAVI e as consequências de sua mensuração: são equiparáveis a medição invasiva e a ecográfica?

Ao estratificar por tipo de apresentação (SCASEST vs. SCACEST), não foram encontradas diferenças significativas quanto à mortalidade ou MACE. 

Conclusões

Nesta coorte contemporânea feita com pacientes da Austrália, o pré-tratamento com DAPT antes da PCI no contexto de SCA foi uma prática comum, embora não tenha se associado de forma independente a uma redução da mortalidade, dos eventos cardiovasculares maiores nem da trombose do stent. 

Título original: Dual Antiplatelet Therapy Prior to Percutaneous Coronary Intervention for Acute Coronary Syndrome: Prevalence and Outcomes in Contemporary Practice.

Referência: Goh SH, Batchelor R, Dinh D, Brennan A, Peters S, Stub D, Reid C, Chan W, Liew D, Wilson W, Lefkovits J; VCOR investigators. Dual Antiplatelet Therapy Prior to Percutaneous Coronary Intervention for Acute Coronary Syndrome: Prevalence and Outcomes in Contemporary Practice. Catheter Cardiovasc Interv. 2025 Apr 8. doi: 10.1002/ccd.31520. Epub ahead of print. PMID: 40195707. 


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Dr. Omar Tupayachi
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Membro do Conselho Editorial do solaci.org

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