A oclusão do apêndice atrial esquerdo (LAAC) experimentou avanços significativos nas últimas décadas. Esse progresso foi impulsionado pelo desenvolvimento de novos dispositivos, pela maior segurança dos procedimentos e pela crescente evidência disponível, o que favorece uma adoção clínica cada vez mais ampla. Apesar dos avanços, a trombose relacionada com o dispositivo (TRD) continua sendo uma preocupação relevante devido a sua associação com um maior risco de eventos tromboembólicos. Foram identificados diversos fatores de risco para a TRD, embora a maioria sejam não modificáveis.

Entre os poucos fatores modificáveis, a implantação profunda do dispositivo surgiu de maneira consistente como um dos preditores mais significativos de TRD em múltiplos estudos. Os implantes distais deixam uma porção relevante do átrio esquerdo exposto à estase sanguínea ao redor da superfície do dispositivo, favorecendo potencialmente a formação de trombos.
Os recentes avanços na modelação mediante dinâmica computacional de fluidos (CFD) permitiram realizar simulações do fluxo sanguíneo específicas para cada pacientes, com o objetivo de avaliar o risco de trombose relacionada com o dispositivo após a LAAC. Tais simulações contribuíram com informação valiosa sobre a relação entre a anatomia do apêndice, a hemodinâmica e o desenvolvimento de trombos. No entanto, os estudos prévios estiveram limitados por tamanhos de amostra reduzidos, o que restringiu a generalização de seus achados.
O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto da profundidade de implantação do dispositivo sobre a dinâmica do fluxo sanguíneo após a LAAC por meio de simulações baseadas em CFD, bem como explorar seu possível papel na estratificação do risco de TRD.
O desfecho primário foi comparar os índices de fluxo derivados da dinâmica computacional de fluidos (CFD) – índice de velocidade superficial do dispositivo (DSVI), potencial de ativação de células endoteliais (ECAP) e presença de redemoinhos/fluxo estancado – entre os grupos com implantação proximal e distal do dispositivo. O desfecho secundário foi explorar a relação entre as características do fluxo antes mencionadas e a taxa de TRD.
O estudo incluiu 285 pacientes submetidos a LAAC com dispositivos Amplatzer Amulet ou Watchman em 10 centros. Foram feitas simulações de dinâmica computacional de fluidos específicas para cada paciente utilizando tomografia computadorizada pós-procedimento e ecografia para avaliar a dinâmica do fluxo sanguíneo. A idade média foi de 75 anos e a maioria dos pacientes eram homens.
Os implantes proximais (57,2%) mostraram padrões de fluxo mais favoráveis: maior DSVI (0,11 m/s vs. 0,09 m/s; p = 0,002), menor ECAP (0,75 VS. 0,90; p = 0,003) e menor número de áreas de recirculação (40,5% vs. 74,6%; p < 0,001). A incidência de TRD aumentou com uma maior profundidade de implantação de forma paralela com a deterioração dos índices de fluxo. Um escore de risco TRD baseado em CFD, que incorporou ECAP, profundidade de implantação e complexidade de fluxo, demonstrou uma boa capacidade discriminatória (área abaixo da curva ROC [AUC] 0,81), superando a profundidade anatômica avaliada de maneira isolada (AUC 0,71).
Conclusão: uma maior profundidade de implantação após a LAAC se associa a alterações do fluxo sanguíneo e pior perfil hemodinâmico
O uso de simulações CFD em pacientes submetidos a LAAC demonstrou uma clara relação entre uma implantação distal mais profunda e a presença de padrões de fluxo anormais, associados a um maior risco de trombose relacionada com o dispositivo (TRD). Esses achados ressaltam a estreita relação entre a alteração da dinâmica de fluxo sanguíneo e a formação de trombos.
Título Original: Impact of device implantation depth on blood flow dynamics after left atrial appendage closure.
Referência: Pedro Cepas-Guillén et al EuroIntervention 2026;22:e444-e454.
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