Terapia abreviada em pacientes com síndrome coronariana aguda: quão seguro é ser conservador com DAPT?

Dupla antiagregação plaquetária abreviada em pacientes com alto risco de sangramento e infarto agudo do miocárdio.


Os pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) que são submetidos a colocação de stent (PCI) requerem de maneira convencional pelo menos 12 meses de dupla antiagregação plaquetária (DAPT) para a redução de eventos isquêmicos. 

Terapia abreviada en pacientes con síndrome coronario agudo ¿Qué tan seguro es ser conservadores con el DAPT?

Os pacientes que além da SCA apresentam alto risco de sangramento representam um cenário complexo, já que seu risco aumenta de maneira bidirecional (a suspensão precoce de um antiagregante gera risco isquêmico ao passo que o tratamento prolongado ou padrão lhes gera risco de sangramento). Nesses casos, tanto os guias americanos como os europeus recomendam DAPT abreviada entre 3 e 6 meses (nível de recomendação IIa ou b). 

Este estudo realizado por Smiths et al, corresponde a uma subanálise do MASTER-DAPT, na qual se fez ênfase em um subgrupo de pacientes com risco de sangramento e uma SCA recente (dentro dos 11 meses de randomização). 

Enquadraram-se no grupo de alto risco de sangramento os pacientes anticoagulados, com sangramento recente não relacionado com o acesso, algum sangramento que tenha levado a hospitalização, idade de 75 anos ou mais, predisposição ao sangramento, anemia documentada ou PRECISE-DAPT ≥ 25; e aqueles que foram submetidos a uma PCI com stent eluidor de drogas Ultimaster e que tenham apresentado eventos no primeiro mês de DAPT pós-intervenção. 

Os pacientes com DAPT de 30-44 dias pós-PCI foram randomizados 1:1 a terapia abreviada (descontinuação da DAPT imediatamente após a randomização) vs. não abreviada (DAPT ≥3 meses pós-stent e continuação de SAPT durante um ano). Neste subgrupo pré-especificado analisaram-se os eventos de uma população com SCA prévia e sem SCA prévia (antecedente de IAM sem elevação do ST [65,1%] e com elevação do ST [29,9%] dentro dos 12 meses).

Leia também: Cirurgia da valva mitral pós-tratamento borda a borda.

Os desfechos analisados foram NACE (combinação de mortalidade por todas as causas, IAM, AVC e a presença de sangramento BARC 3 ou 5), MACCE (combinação de mortalidade por todas as causas, IAM ou AVC) e sangramento maior segundo BARC 2, 3 ou 5. Os eventos secundários foram os pontos individuais dos primários. 

Desde fevereiro de 2017 até dezembro de 2019, dentre os pacientes do ramo abreviado, 914 tiveram IAM nos 12 meses prévios e 1381 não apresentaram SCA, ao passo que no ramo não abreviado, 866 tiveram IAM recente e 1418 não tiveram. A idade média foi de 76 ± 8,7 anos, 33% eram diabéticos, 36,4% estavam em tratamento anticoagulante. A indicação para a intervenção foi SCA em 48,3% dos pacientes (25,2% SCASEST e 11,7% SCACEST).

Nos pacientes com IAM prévio (≤ 12 meses) foi observado um índice de NACE de 8,9% na terapia abreviada vs. 10,6% na não abreviada (HR 0,86, IC 95% 0,62-1,19, p = 0,36). Os MACCE não diferiram entre os dois grupos (HR 0,86, IC 95% 0,40-0,93, P = 0,022). O sangramento BARC 2, 3 e 5 foi menor na terapia abreviada (HR 0,65, IC 95% 0,46-0,91; P = 0,01), sobretudo devido ao BARC 2. 

Leia também: Impacto da estimulação do ventrículo direito em pacientes com marca-passo definitivo após o TAVI

Nos pacientes sem IAM prévio os eventos clínicos em 12 meses não apresentaram mudanças significativas, observando-se NACE de maneira similar com terapia abreviada e com terapia padrão (HR 1,03, IC 95% 0,77-1,38; P = 0,85), caso similar tendo ocorrido com os MACCE, onde não se evidenciaram diferenças significativas (HR 1,13, IC 95% 0,80-1,59; P = 0,48).

Conclusões

Os principais achados do subgrupo predefinido do MASTER-DAPT são os seguintes: em comparação com uma terapêutica antiagregante não abreviada, diminuir o tempo de DAPT não se associou a maior quantidade de eventos isquêmicos e eventos puros, tanto nos pacientes com SCA recente quanto nos pacientes sem SCA recente. 

Em segundo lugar, a opção de suspender o DAPT um mês após a intervenção reduziu de maneira significativa os sangramentos clinicamente relevantes. 

Dr. Omar Tupayachi

Dr. Omar Tupayachi.
Membro do Conselho Editorial da SOLACI.org.

Título Original: Abbreviated Antiplatelet Therapy After Coronary Stenting in Patients With Myocardial Infarction at High Bleeding Risk.

Referência: Smits PC, Frigoli E, Vranckx P, et al. Abbreviated Antiplatelet Therapy After Coronary Stenting in Patients With Myocardial Infarction at High Bleeding Risk. J Am Coll Cardiol. 2022;80(13):1220-1237. doi:10.1016/j.jacc.2022.07.016.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Mais artigos deste autor

CRT 2026 | CUT-DRESS Trial: preparação da lesão com cutting balloon

A reestenose intra-stent (RIS) continua representando um desafio clínico relevante na prática contemporânea da angioplastia coronariana. Apesar dos avanços nos stents farmacológicos, a hiperplasia...

CRT 2026 | Clopidogrel vs. aspirina como monoterapia a longo prazo após uma angioplastia coronariana

O uso de aspirina como terapia antiplaquetária crônica após uma angioplastia coronariana (PCI) foi historicamente o padrão recomendado pelas diretrizes internacionais. No entanto, estudos...

Dispositivos bioabsorvíveis vs DES em pacientes com alto risco de reestenose. Seguimento de 7 anos do estudo COMPARE-ABSORB

Estudos com stents farmacológicos (DES) de segunda geração demonstraram que a taxa de falha da lesão-alvo (TLF) aumenta de forma linear até 5 ou...

Rivaroxabana em doses baixas após a angioplastia periférica: efetividade e segurança na prática clínica

Após a revascularização de membros inferiores, o tratamento médico ótimo inclui antiagregação, estatinas de alta intensidade e controle dos fatores de risco. Estudos recentes...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

CRT 2026 | NAVITOR IDE: resultados hemodinâmicos e durabilidade em seguimento de 5 anos de uma válvula aórtica transcateter intra-anular autoexpansível

À medida que o TAVI se expande a uma população mais jovem e de menor risco cirúrgico, a durabilidade das próteses passa a ser...

CRT 2026 | TAVI-CLOSE Trial: dupla sutura + plugue para oclusão vascular após TAVI transfemoral

O acesso transfemoral é a estratégia predominante para o implante percutâneo da valva aórtica (TAVI). Embora as complicações vasculares não sejam, na atualidade, tão...

CRT 2026 | CUT-DRESS Trial: preparação da lesão com cutting balloon

A reestenose intra-stent (RIS) continua representando um desafio clínico relevante na prática contemporânea da angioplastia coronariana. Apesar dos avanços nos stents farmacológicos, a hiperplasia...