É hora de abandonar a aspirina após a ATC em pacientes com alto risco de sangramento? Uma análise crítica do estudo STOPDATP-3

A estratégia de encurtar a duração do tratamento antiplaquetário dual (DAPT) foi adotada em pacientes com alto risco de sangramento (HBR) com o objetivo de minimizar as complicações hemorrágicas após uma intervenção transluminal coronariana (ATC). No entanto, a eficácia de eliminar por completo a aspirina em dita população –optando por uma monoterapia com prasugrel desde o momento da ATC– continua sendo incerta. 

Esta subanálise do estudo STOPDAPT-3 avaliou 3258 pacientes com HBR, comparando a monoterapia com prasugrel (sem aspirina) versus a DAPT durante um mês. Os participantes foram subdivididos segundo sua apresentação clínica: 1803 pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) (915 no grupo de monoterapia com prasugrel e 88 com DAPT) e 1455 sem SCA (723 com monoterapia e 732 com DAPT). A dose de carga de prasugrel foi de 20 mg, com uma dose de manutenção de 3,75 mg (dose aprovada no Japão). Não foram utilizados outros inibidores do receptor P2Y12, como o clopidogrel ou o ticagrelor, em nenhum dos grupos. 

A idade média foi de 77,6 ± 8,8 anos e 71,2% dos pacientes eram homens. Entre os pacientes com SCA, 53% apresentaram um IAM com elevação do ST (IAMCEST). Em ambos os subgrupos, 78% dos procedimentos foram feitos por acesso radial. A aderência ao tratamento designado foi alta e similar entre os grupos (SCA: 88,2% com prasugrel vs. 86,1% com DAPT; não-SCA: 87,2% vs. 86,8%).  

O critério principal de segurança foi o sangramento maior (BARC 3 ou 5), ao passo que o critério de eficácia foi uma combinação de morte cardiovascular, infarto agudo do miocárdio (IAM), trombose do stent ou acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, ambos avaliados 30 dias após a ATC com stents eluidores de everolimus. 

Leia também: EuroPCR 2025 | Estudo 4D-ACS: Terapia antiplaquetária dual de um mês seguida de monoterapia com prasugrel em dose reduzida.

Não foram observadas diferenças significativas em termos de sangramento maior entre a estratégia sem aspirina e a DAPT, independentemente do subgrupo clínico (SCA: 7,3% VS. 7,9%; não-SCA: 3,1% vs. 2,9%; p de interação = 0,66). No tocante aos eventos cardiovasculares (morte, IAM, trombose do stent ou AVC), no subgrupo com SCA foi observada uma tendência não significativa de um maior risco com a estratégia sem aspirina (7,9% vs. 5,8%; HR: 1,39). Em contraste, no subgrupo sem SCS não foi evidenciado um aumento do risco (2,4% vs. 3,0%; HR: 0,78). No entanto, o risco de IAM mostrou uma interação significativa segundo o subgrupo (SCA: 1,6% vs. 0,3%; HR: 4,57; não-SCA: 1,4% vs. 1,8%; HR> 0,78; p de interação = 0,22). 

Conclusão

A estratégia sem aspirina (monoterapia com prasugrel a partir da ATC) não reduziu os eventos de sangramento maior em pacientes com HBR, independentemente da presença de SCA. Em pacientes com SCA, esta estratégia se associou a um maior risco de eventos cardiovasculares, em particular IAM. Em pacientes sem SCA, esta poderia ser considerada como uma estratégia após a intervenção coronariana.  

Título Original: Aspirin-Free Strategy for PCI in Patients With High Bleeding Risk With or Without Acute Coronary Syndrome: A Subgroup Analysis From the STOPDAPT-3 Trial.

Referência: Tetsuya Ishikawa et al. Circulation: Cardiovascular Interventions, Volumen 18, e015197, julio 2025.


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