Reperfusão em tempos de Coranavírus: o que mudou?

Estamos no meio de uma pandemia pelo novo COVID-19, embora o mundo já estivesse imerso em uma pandemia por doença cardiovascular. Ambas as emergências desafiam os sistemas de saúde e – pior ainda – podem coexistir. 

Reperfusión en tiempos de Cornavirus

Os sintomas das duas doenças podem se sobrepor (como a dificuldade respiratória) e são pouco confiáveis, bem como muitos dos testes diagnósticos. 

A maioria dos testes de triagem para COVID-19 podem ter até 30% de falsos negativos e 80% das infecções são assintomáticas. 

Os primeiros em lidar com o coronavírus (e já poderíamos considerá-los “os mais especialistas”) foram os médicos chineses. No contexto da pandemia por coronavírus eles recomendaram os fibrinolíticos por sobre a angioplastia primária nos infartos com supradesnivelamento do segmento ST. 

Muitos consideraram que esta é uma recomendação razoável para oferecer a reperfusão o mais cedo possível usando a menor quantidade de recursos necessários dos saturados hospitais. 


Leia também: Cardiologia em tempos do coronavírus: a tempestade perfeita.


Todos nós reconhecemos que o objetivo neste momento é o controle do dano com o fim último de atuar da melhor maneira possível com o pouco que temos. 

Historicamente, os fibrinolíticos foram a primeira estratégia de reperfusão sistematicamente implementada. Depois, a angioplastia primária provou sua superioridade, inclusive a muito longo prazo, o que fez dela o padrão de tratamento para as síndromes coronarianas agudas com supradesnivelamento do segmento ST. Isso não significa que os fibrinolíticos tenham deixado de ser usados. Ainda há áreas isoladas, populações pequenas e países com escassos recursos que os utilizam como única possibilidade. 

O estudo STREAM (Strategic Reperfusion Early After Myocardial Infarction) é um trabalho contemporâneo que incluiu pacientes cursado um infarto com supradesnivelamento do segmento ST com menos de 3 horas do início dos sintomas e sem possibilidade de angioplastia primária dentro dos 60 minutos do primeiro contato médico. 


Leia também: Coronavírus e coração: como devem se preparar os cardiologistas?


Os pacientes foram randomizados a fibrinolíticos com encaminhamento a angioplastia dentro das 6 a 24 horas vs. angioplastia primária (diferença média de tempo entre os fibrinolíticos e a angioplastia primária ≥ 78 minutos). Os resultados dos fibrinolíticos vs. a angioplastia primária foram similares no desfecho combinado de morte, choque cardiogênico, insuficiência cardíaca ou reinfarto. 

A necessidade de angioplastia de urgência no braço fibrinolíticos foi de 36% e a mortalidade em ambos os grupos foi < 5%.

O sangramento intracraniano foi superior com trombolíticos (1,0% vs. 0,5%; p = 0,02). Apesar do anteriormente afirmado, os trombolíticos não tiveram uma má performance na era dos inibidores do receptor P2Y12. 


Leia também: Coronavírus | Protocolo de gestão de salas de cardiologia intervencionista durante o surto de COVID-19.


Os tempos para a realização de uma angioplastia primária podem ser delongados pela saturação do sistema, não somente pelos operadores individuais. Antes da angioplastia primária – e isto é válido para os pacientes com resultado negativo para COVID-19 – deve ser rastreado o histórico de contatos e os sintomas (não somente os do infarto), entre outras coisas, antes de encaminhar o paciente à sala de cateterismo. 

Os intervencionistas também devem usar todo o equipamento de proteção pessoal e sua colocação pode dificultar e retardar o trabalho. 

Além de tudo, mesmo com toda a proteção, o contágio pode ocorrer e o conseguinte isolamento pode reduzir o número de intervencionistas de um serviço durante a pandemia. 

circulation-aha-120-047122

Título original: Reperfusion of STEMI in the COVID-19 Era – Business as Usual?

Referência: Matthew J. Daniels et al. CIRCULATION 2020, article in press. 


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

ACC 2026 | DKCRUSH VIII: IVUS ou angiografia para guiar a PCI em bifurcações coronarianas complexas

Guiar os procedimentos através de imagens intracoronarianas consolidou-se como uma estratégia recomendada em lesões coronarianas complexas. No cenário específico das bifurcações complexas, ainda persistia...

ACC 2026 | OPTIMAL: IVUS como guia na PCI do tronco da coronária esquerda não protegido

A angioplastia coronariana (PCI) é considerada uma alternativa equivalente à cirurgia de revascularização em pacientes com estenose do tronco da coronária esquerda (TCE) e...

ACC 2026 | Estudo IVUS-CHIP: angioplastia complexa guiada por ultrassom intravascular versus angiografia

A otimização da angioplastia coronariana (ATC) em lesões complexas continua sendo um desafio clínico relevante. Em tal contexto, o estudo IVUS-CHIP foi desenhado para...

ACC 2026 | Estudo PRO-TAVI: Diferir a angioplastia coronariana em pacientes submetidos a TAVI

A doença coronariana é frequente em pacientes com estenose aórtica severa candidatos a TAVI. As atuais diretrizes recomendam considerar a revascularização em lesões coronarianas...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Espaço do Fellow – Caso 1: Oclusão Total Crônica Tratada por Via Retrógrada. Um Verdadeiro Desafio!

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Apresentamos o primeiro caso desta nova edição do Rincón del Fellow, um espaço acadêmico e colaborativo...

Manejo da trombose valvar em TAVI: enfoque atual baseado em evidência

A expansão do implante transcateter da valva aórtica (TAVI) em populações mais jovens e de menor risco colocou em primeiro plano a trombose da...

Experiência com a válvula intra-anular autoexpansível Navitor: dados do registro STS/ACC TVT

A expansão do TAVI, com a introdução de dispositivos de nova geração, tem priorizado não só a segurança periprocedimento mas também a preservação do...