Resultados hemodinâmicos do reparo borda a borda em insuficiência mitral degenerativa e funcional

O reparo mitral transcateter borda a borda (M-TEER) se consolidou como uma opção terapêutica para a valvopatia mitral. Entre as técnicas disponíveis, o M-TEER com o sistema MitraClip (Abbott) conta com uma sólida evidência que respalda seu uso e atualmente está amplamente adotada como alternativa ao tratamento cirúrgico. No manejo da insuficiência mitral (IM), reduzir a gravidade da regurgitação constitui, sem dúvida, um objetivo fundamental. 

No entanto, a partir da perspectiva do tratamento da insuficiência cardíaca (IC), a otimização da hemodinâmica é crucial para melhorar os resultados clínicos desses pacientes. Estudos prévios sugeriram que a mensuração direta da pressão durante o procedimento, em particular a redução da pressão média do átrio esquerdo (mLAP), se associa a um melhor prognóstico. Entretanto, a evidência disponível continua sendo limitada, especialmente em estudos multicêntricos. 

O objetivo deste estudo foi avaliar se a redução da pressão média do átrio esquerdo (mLAP) durante o procedimento de M-TEER possui valor prognóstico, analisando os resultados conforme a etiologia da insuficiência mitral: degenerativa (DMR) ou funcional (FMR). 

Analisaram-se 2.629 pacientes do registro OCEAN-Mitral do Japão submetidos a M-TEER com mensuração direta da mLAP. Os pacientes foram divididos em dois grupos conforme a etiologia da IM: DMR (825 pacientes, 31.4%) e FMR (1.804 pacientes. 68,6%).

Leia também: O screening do aneurisma de aorta abdominal em mulheres é custo-efetivo?

O desfecho primário foi um composto de mortalidade por todas as causas e re-hospitalização por insuficiência cardíaca. 

No tocante aos resultados, observou-se uma redução da mLAP em 58.9% da população total (70% no grupo DMR e 54% no grupo FMR). Nos pacientes com insuficiência mitral degenerativa, a diminuição da mLAP se associou a um risco significativamente menor de morte ou re-hospitaliação por IC (HR ajustado: 0,66; p = 0,028). Em contraposição, nos pacientes com insuficiência mitral funcional não foi encontrada uma associação clara entre a redução da mLAP e a melhora dos resultados clínicos (HR ajustado: 0,90; p = 0,251). Embora os padrões de fluxo pulmonar tenham melhorado em ambos os grupos, a combinação de redução da mLAP e a melhora do fluxo pulmonar pôde prever melhores resultados clínicos unicamente nos pacienes com DMR. 

Conclusão: a redução intraprocedimento da mLAP melhora o prognóstico somente na insuficiência mitral degenerativa

O estudo conclui que a redução intraprocedimento da mLAP constitui um fator prognóstico independente de melhores resultados clíncios em pacienes com insuficiência mitral degenerativa, mas não naqueles com insuficiência mitral funcional. 

Dita diferneça sugere que, na DMR, a diminuição da pressão reflete uma verdadeira melhora hemodinâmica, provavelmente relacionada a uma maior distensibilidade do átrio esquerdo. Por isso, os autores destacam a importância de realizar uma avaliação hemodinâmica em tempo real durante o procedimento de M-TEER, especialmente em pacientes com DMR, considerando-a um objetivo procedimental de grande valor que transcende a simples redução anatômica da insuficiência mitral. 

Título Original: Haemodynamic Outcomes of M-TEER in Degenerative and Functional Mitral Regurgitation.

Referência: Shingo Kuwata et al EuroIntervention 2026;22:e690-e700.


 

Dr. Andrés Rodríguez
Dr. Andrés Rodríguez
Membro do Conselho Editorial da solaci.org

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