A obstrução coronariana durante o TAVI é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente devastadora, especialmente em procedimentos valve-in-valve, em anatomias com seios de Valsalva pequenos, óstios coronarianos (OC) baixos ou uma escassa distância entre a válvula transcateter e o OC. Os índices tomográficos clássicos, como a distância valva-coronária (valve-to-coronary, VTC) e valva-junção sinotubular (valve-to-sinotubular junction, VTSTJ), foram incorporados ao planejamento do procedimento para identificar pacientes com risco de obstrução coronariana, inclusive quando é considerada uma estratégia de proteção coronariana (CP).

Em tal contexto, pesquisadores da Universidade de Leipzig (Abdelhafez et al.) avaliaram um algoritmo baseado em tomgrafia computadorizada e propuseram um novo parâmetro volumétrico, o valve-to-coronary volume (VTCV), destinado a estimar o espaço residual disponível para a perfusão coronariana após o implante valvar.
Realizou-se um estudo prospectivo, observacional e unicêntrico no Heart Center Leipzig entre janeiro de 2022 e outubro de 2024. Incluíram-se pacientes considerados em risco de obstrução coronariana. O algoritmo classificou o risco em baixo, intermediário ou alto utilizando medições de altura coronariana, comprimentos dos leaflets, VTC, VTSTJ e sua relação com a junção sinotubular. Nos pacientes de alto risco, o VTCV foi calculado por meio de uma fórmula derivada do volume residual. A indicação e o tipo de proteção coronariana ficaram a critério do Heart Team, podendo incluir proteção passiva com stent posicionado e não liberado ou modificação do leaflet por meio de eletrocirurgia.
Foram analisados 164 pacientes, com um total de 211 artérias coronárias avaliadas. De acordo com o algoritmo tomográfico, 58,5% dos pacientes foram classificados como de baixo risco, 24,4% como de risco intermediário e 17,1% como de alto risco. Em termos coronarianos, a distribuição foi de 59,2%, 25,1% e 15,6%, respectivamente.
A proteção coronariana foi utilizada em 37,8% dos casos, com uma frequência crescente segundo a estratégia de risco: 12,8% no grupo de baixo risco, 52.8% no de risco intermediário e 93,9% no de alto risco.
Registraram-se sete eventos de obstrução coronariana em seis pacientes, todos pertencentes ao grupo de alto risco. A proteção coronariana evitou a obstrução em 69 das 75 artérias protegidas, alcançando uma taxa de sucesso de 92%. No entanto, entre as artérias classificadas como de alto risco, as que desenvolveram obstrução apresentaram uma distância VTC significativamente menor do que as que não experimentaram o evento (2,1 mm vs. 2,9 mm; p = 0,006), bem como um VTCV acentuadamente inferior (156 mm³ vs. 273,4 mm³; p = 0,005). Esses achados sugerem que em anatomias complexas a distância linear poderia não refletir adequadamente o espaço real disponínvel para manter a perfusão coronariana.
Leia também: T-TEER: para além dos limiares tradicionais de hipertensão pulmonar.
Na análie preditiva, o VTCV mostrou uma área abaixo da curva de 0,841 (IC de 95%: 0,702-0,979; p < 0,001). Utilizando um ponto de corte de VTCV < 226,4 mm³, o parâmetro alcançou uma sensibilidade de 85,7% e uma especificidade de 73,1% para predizer obstrução coronariana apesar da proteção coronariana convecional.
VTCV: um novo parâmetro tomográfico para identificar pacientes com alto risco de obstrução coronariana em TAVI
De acordo com os resultados deste estudo, a aplicação sistemática de um algoritmo tomográfico permite uma estratificação eficaz do risco de obstrução coronariana durante o TAVI, alcançando uma proteção coronariana efetiva na maioria dos pacientes. Do mesmo modo, os achados destacam o valor potencial do VTCV como uma ferramenta complementar para identificar anatomias de muito alto risco, particularmente aquelas com volumes residuais extremamente rduzidos no seio de Valsalva, onde os parâmetros lineares tradicionais poderiam ser insuficientes.
Título original: CT-Based Risk Stratification of Coronary Obstruction During TAVR.
Fonte: Abdelhafez, A, Lankisch, N, Iannopollo, G. et al. CT-Based Risk Stratification of Coronary Obstruction During TAVR: Clinical Utility and a New Volumetric Parameter. J Am Coll Cardiol Intv. 2026 Jun, 19 (11) 1406–1419. https://doi.org/10.1016/j.jcin.2026.04.015.





