Frequência e evolução da perfuração cardíaca em pacientes com CRM prévia

Gentileza do Dr. Carlos Fava.

A perfuração coronariana (PC) é muito pouco frequente (≈0.4%), já que pode se associar a complicações severas com risco de morte. Usualmente, esse procedimento tem se relacionado com pacientes com cirurgia de revascularização miocárdica (CRM) prévia. No entanto, dito grupo costuma apresentar menos tamponamento cardíaco, devido à fibrose do pericárdio ocasionada pela cirurgia.

Frecuencia y evolución de la perforación cardíaca en CRM previa

Neste estudo foram analisadas 59.644 angioplastias de tronco da coronária (ATC) realizadas em pacientes que apresentavam CRM. As mesmas tinham sido efetuadas entre 2005 e 2013. Durante esse período houve um incremento das ATC em CRM (7,7% em 2005 e 10,2% em 2013) e uma incidência global de PC em 309 pacientes (0,52%). A presença de PC em 2005 foi de 0,32%, com um incremento a 0,68% em 2013 (p = 0,001), sem haver diferença entre vasos nativos e pontes (0,51% vs. 0,71%).

 

As populações foram similares, a não ser pela presença de angina estável, que foi maior nas PC efetuadas em vasos nativos. Com o passar dos anos foi se incrementando a idade, o índice de AVC prévio e as oclusões totais crônicas (CTO). 


Leia também: Endarterectomia vs. angioplastia em doença carotídea assintomática”.


As complicações hospitalares foram mais frequentes nos pacientes que apresentaram PC (14,2% vs. 3,6% p < 0,001), IAM Q (2,9% vs. 0,2%; p < 0,001), sangramento maior (14% vs. 0,9%; p < 0,001), transfusão (3,7% vs. 0,2%; p < 0,001), insuficiência renal (1,1% vs. 0,1%; p < 0,001) e mortalidade (10% vs. 1,1%; p < 0,001). A presença de tamponamento cardíaco, choque cardiogênico, cirurgia de emergência e complicação do local de acesso foram mais comuns nesse grupo.

 

Não houve diferenças em mortalidade hospitalar e em 30 dias entre as artérias nativas e as pontes. 

 

A mortalidade entre os 30 dias e um ano foi superior na PC e associou-se à maior presença de comorbidades (OR 1,35).


Leia também: Novas estratégias no território femoropoplíteo”.


Associou-se de forma independente à PC em vasos nativos a idade, CTO, aterectomia rotacional, número de stents, hipertensão e sexo feminino; e em pontes, o AVC, a classe funcional e o número de stents implantados.

 

Conclusão

A PC é pouco frequente durante a ATC em CRM, mas se associa de forma acentuada a uma evolução clínica adversa e a maior mortalidade em 12 meses.

 

Comentário editorial

Neste estudo foi observado de forma global um aumento significativo das angioplastias em pacientes com CRM prévia ao longo dos anos, associando-se a mais comorbidades e lesões mais complexas (fundamentalmente por maior presença de CTO, lesões longas e bifurcações). Isso trouxe consigo um aumento da taxa de PC. Contudo, na análise anualizada também se percebeu uma diminuição da mortalidade devido à maior experiência dos operadores.

 

É importante saber que os pacientes com CRM prévia apresentaram mais comorbidades e lesões muito mais complexas que os que não foram operados. Por isso, devemos – como intervencionistas – adquirir a maior experiência possível antes de enfrentar esses desafios que seguramente serão mais frequentes no futuro.

 

Título original: Coronary Perforation Complicating Percutaneous Coronary Intervention in Patients With a History of Coronary Artery Bypass Surgery. An Analysis of 309 Perforation Cases from the British cardiovascular Intervention Society database.

Referência: Tim Kinnaird et al. Circ CArdiovasc Interv 2017;10:e005581.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Rupturas de placa en artérias não culpadas: seguimento com imagens intravasculares

A ruptura de placa continua sendo um dos mecanismos fisiopatológicos mais importantes nas síndromes coronarianas agudas. No entanto, nem todas as rupturas se manifestam...

OCT e placas de alto risco: um preditor fundamental de eventos recorrentes após um infarto do miocárdio

Após um infarto do miocárdio (IM), as lesões não culpadas costumam ser diferidas quando não apresentam limitação significativa do fluxo coronariano (FFR negativo). No...

Ticagrelor vs. clopidogrel em pacientes com SCA e ACOD após ICP: mais sangramento sem benefício isquêmico?

Em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) que requerem anticoagulação oral direta (ACOD) e são submetidos a uma intervenção coronariana percutânea (ICP), os guias...

EuroPCR 2026 | É seguro suspender a aspirina a um mês em pacientes com infarto tratados com PCI? Análise do TARGET-FIRST

Este é um resumo da análise pós-hoc do estudo TARGET-FIRST, apresentado pelo Dr. Giuseppe Tarantini no EuroPCR 2026 sobre a interrupção precoce da aspirina...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Obstrução coronariana no TAVI: um novo índice volumétrico a ser considerado

A obstrução coronariana durante o TAVI é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente devastadora, especialmente em procedimentos valve-in-valve, em anatomias com seios de Valsalva...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

EARLY TAVR: impacto da idade nos resultados do TAVI precoce em pacientes assintomáticos

A estenose aórtica severa assintomática representa um desafio clínico cada vez mais frequente. Embora as diretrizes recomendem intervir quando aparecem sintomas ou deterioração da...