ESC 2019 | Complete: a evidência definitiva para infartos com múltiplos vasos

Para os pacientes com um infarto com supradesnivelamento do segmento ST e que além da artéria culpada apresentam outros vasos, a revascularização completa é superior ao tratamento de somente a artéria culpada no que se refere ao desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto e revascularização justificada pela isquemia em uma média de seguimento de 3 anos. Esta informação se desprende do estudo randomizado Complete, por muito tempo esperado e finalmente apresentado nas sessões científicas do ESC 2019 (e simultaneamente publicado no NEJM).

A revascularização completa foi superior, mas também é importante ressaltar que o momento de sua realização não interferiu nos resultados. Com esta informação não deveríamos realizar angioplastias de múltiplos vasos no meio da madrugada. O ideal é intervir somente na artéria culpada do infarto e posteriormente planificar a intervenção do resto dos vasos em uma segunda etapa, que bem pode ser no dia seguinte.

O estudo Complete randomizou 4.041 pacientes com lesão de múltiplos vasos que foram admitidos cursando um infarto agudo do miocárdio e que receberam angioplastia primária bem-sucedida da artéria culpada a continuar com a revascularização vs. tratamento médico de acordo com as diretrizes.


Leia também: Podemos resolver a insuficiência mitral residual severa após implante do MitraClip sem cirurgia?


Todos os pacientes apresentavam lesão de múltiplos vasos com lesões de pelo menos 70% de estenose ou com uma medição de FFR de 0,8 ou menos. O momento da revascularização completa ficou a critério do operador. Não foi incluído nenhum paciente em choque cardiogênico.

A maioria das lesões não culpadas estavam na descendente anterior (40%), seguida pela circunflexa e por último a coronária direita.

Após um seguimento de 3 anos a taxa de desfecho primário (morte cardiovascular, novo infarto ou revascularização justificada por isquemia) foi significativamente menor nos pacientes que receberam revascularização completa vs. somente vaso culpado (7,8% vs. 10,5%; HR 0,74 IC 95% 0,6 a 0,91).

O resultado não foi afetado pelo momento de realização da angioplastia no resto dos vasos, isto é, durante a internação índice (média de 1 dia após a angioplastia primária do vaso culpado) ou após a alta (média de 23 dias após a angioplastia primária).


Leia também: Mudanças fisiológicas e clínicas após a reparação da valva tricúspide.


O maior efeito da revascularização completa foi observado em relação à taxa de novos infartos, que sofreu uma redução de 32%. Não foram observadas diferenças em termos de mortalidade, embora o número de um pouco mais de 4.000 pacientes careça de poder estatístico para mostrar tal diferença.

Com relação ao fato de ser necessário ou não o FFR para tomar a decisão de revascularizar as lesões não culpadas, talvez o Complete tenha se atido a um protocolo demasiadamente rígido no que se refere aos critérios de inclusão. 60% dos pacientes tinham lesões que, em termos angiográficos, superavam 80% de estenose e a maior parte de ditas lesões se encontravam na descendente anterior, motivo pelo qual em dito contexto a coincidência entre FFR e angioplastia foi alta.


Título original: Complete revascularization with multivessel PCI for myocardial infarction.

Referência: Mehta SR et al. N Engl J Med. 2019; Epub ahead of print.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Rupturas de placa en artérias não culpadas: seguimento com imagens intravasculares

A ruptura de placa continua sendo um dos mecanismos fisiopatológicos mais importantes nas síndromes coronarianas agudas. No entanto, nem todas as rupturas se manifestam...

OCT e placas de alto risco: um preditor fundamental de eventos recorrentes após um infarto do miocárdio

Após um infarto do miocárdio (IM), as lesões não culpadas costumam ser diferidas quando não apresentam limitação significativa do fluxo coronariano (FFR negativo). No...

Ticagrelor vs. clopidogrel em pacientes com SCA e ACOD após ICP: mais sangramento sem benefício isquêmico?

Em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) que requerem anticoagulação oral direta (ACOD) e são submetidos a uma intervenção coronariana percutânea (ICP), os guias...

EuroPCR 2026 | É seguro suspender a aspirina a um mês em pacientes com infarto tratados com PCI? Análise do TARGET-FIRST

Este é um resumo da análise pós-hoc do estudo TARGET-FIRST, apresentado pelo Dr. Giuseppe Tarantini no EuroPCR 2026 sobre a interrupção precoce da aspirina...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Obstrução coronariana no TAVI: um novo índice volumétrico a ser considerado

A obstrução coronariana durante o TAVI é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente devastadora, especialmente em procedimentos valve-in-valve, em anatomias com seios de Valsalva...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

EARLY TAVR: impacto da idade nos resultados do TAVI precoce em pacientes assintomáticos

A estenose aórtica severa assintomática representa um desafio clínico cada vez mais frequente. Embora as diretrizes recomendem intervir quando aparecem sintomas ou deterioração da...