Tendências no tratamento da isquemia crítica de membros inferiores

Aproximadamente 25% dos pacientes com isquemia crítica de membros inferiores (ICMI) enfrentam uma amputação dentro do primeiro ano após o diagnóstico (segundo estatísticas dos EUA). Uma adequada avaliação desses pacientes deve incluir a realização de angiografia e revascularização antes de considerar a amputação. No entanto, entre 2009 e 2015 registrou-se um incremento de 50% nas amputações, muitas vezes sem ter sido feita uma revascularização apropriada. 

O objetivo deste estudo retrospectivo foi avaliar as modalidades de revascularização (endovascular e cirúrgica), suas variações e desfechos em centros nacionais dos EUA, utilizando dados de pacientes do Medicare. Foram incluídos pacientes de ≥ 66 anos diagnosticados com ICMI que foram submetidos a revascularização infrainguinal entre 2015 e 2021.

O desfecho primário (DP) foi a amputação maior do membro afetado dentro do ano posterior à revascularização. Os desfechos secundários incluíram amputação ou morte, morte, realização de um novo procedimento e amputação menor no mesmo período. 

Dos 196.070 pacientes diagnosticados com ICMI, 82,5% receberam tratamento endovascular. A idade média foi de 73,5 anos. Os pacientes selecionados para o tratamento endovascular tendiam a ser mais idosos, predominantemente mulheres e com uma maior carga de comorbidades. Por outro lado, aqueles que foram submetidos a bypass cirúrgico apresentavam maiores taxas de tabagismo e relatos de dor em repouso. 

Leia também: Tratamento percutâneo da insuficiência tricúspide com o sistema K-CLIP.

Entre os pacientes tratados inicialmente com abordagem endovascular, 1,8% precisou ir a cirurgia antes da amputação. A técnica mais utilizada foi a angioplastia com aterectomia (15,5%), seguida de somente angioplastia (44,4%). Foi observada uma alta variabilidade na escolha de estratégias de revascularização entre instituições (MOR: 2,37). 

Nos centros de maior volume onde se priorizou a revascularização endovascular como primeira opção, registrou-se um menor índice de amputações maiores (aHR: 0,82; IC 95%: 0,77-0,88; p < 0,01) e uma maior taxa de reintervenções (aHR: 1,37; IC 95%: 1,32-1,43; p < 0,01), sem diferenças significativas em termos de mortalidade ou amputações menores. 

Leia também: Subanálise do Registro PULSE: acesso secundário radial vs. femoral.

Em relação à cirurgia, os centros de maior volume apresentaram um índice mais elevado de amputações maiores (aHR: 1,21; IC 95%: 1,13-1,29; p < 0,01) e uma menor frequência de novos procedimentos (aHR: 0,73; IC 95%: 0,70-0,76; p < 0,01), sem diferenças em termos de mortalidade ou de taxa de amputações menores. 

Conclusões

A análise do registro de pacientes do Medicare evidenciou uma considerável variabilidade entre os centros nas estratégias de revascularização para a ICMI. Os centros que priorizaram o tratamento endovascular como primeira opção conseguiram reduzir as taxas de amputações maiores, sem afetar a mortalidade. Este estudo, baseado em dados do mundo real, destaca a relevância da expertise nos procedimentos para reduzir a ocorrência de eventos adversos. 

Título Original: Variations in Revascularization Strategies for Chronic Limb-Threatening Ischemia.

Referência: Raja A, Song Y, Li S, Parikh SA, Saab F, Yeh RW, Secemsky EA. Variations in Revascularization Strategies for Chronic Limb-Threatening Ischemia: A Nationwide Analysis of Medicare Beneficiaries. JACC Cardiovasc Interv. 2024 Dec 20:S1936-8798(24)01209-3. doi: 10.1016/j.jcin.2024.09.024. Epub ahead of print. PMID: 39797832.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Dr. Omar Tupayachi
Dr. Omar Tupayachi
Membro do Conselho Editorial do solaci.org

Mais artigos deste autor

Estratégias terapêuticas diante do achado de um trombo carotídeo: evidência e controvérsias

O trombo carotídeo flutuante (cFFT) é uma entidade pouco frequente e de alto risco embólico, associada a eventos neurológicos agudos como o AVC ou...

ACC 2026 | Estudio SirPAD: angioplastia com balão eluidor de sirolimo em doença arterial infrainguinal

Os balões recobertos com paclitaxel demonstraram melhorar a perviedade na doença arterial periférica (DAP), embora persistam interrogantes em termos de segurança e aplicabilidade em...

ACC 2026 | HI-PEITHO: estratégia dirigida por cateter (EKOS) em pacientes com TEP agudo de risco intermediário

O tratamento do TEP de risco intermediário continua sendo um cenário de incerteza terapêutica. O estudo inicial PEITHO (2014) demonstrou uma redução da deterioração...

ACVC 2026 | Registro FLASH coorte europeia: trombectomia mecânica em TEP

O manejo do tromboembolismo pulmonar (TEP) de risco intermediário-alto e alto continua sendo uma área de incerteza terapêutica, especialmente em pacientes com disfunção do...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Espaço do Fellow – Caso 1: Oclusão Total Crônica Tratada por Via Retrógrada. Um Verdadeiro Desafio!

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Apresentamos o primeiro caso desta nova edição do Rincón del Fellow, um espaço acadêmico e colaborativo...

Manejo da trombose valvar em TAVI: enfoque atual baseado em evidência

A expansão do implante transcateter da valva aórtica (TAVI) em populações mais jovens e de menor risco colocou em primeiro plano a trombose da...

Experiência com a válvula intra-anular autoexpansível Navitor: dados do registro STS/ACC TVT

A expansão do TAVI, com a introdução de dispositivos de nova geração, tem priorizado não só a segurança periprocedimento mas também a preservação do...