Vantagens teóricas mas traduzidas em piores resultados clínicos: Synergy vs. Xience

Dados recentes de um registro do “mundo real” que serão proximamente publicados no J Am Coll Cardiol Intv sugerem que o stent Synergy (stent com struts finos, eluidor de everolimus e polímero biodegradável) se associaria a um maior risco de trombose aguda em comparação com o clássico Xience (com struts mais grossos, eluidor de everolimus e polímero permanente).

synergy vs XIENCE

No seguimento de 12 meses não se observaram diferenças em termos de eventos clínicos entre ambos os stents (morte cardíaca, infarto relacionado com o vaso, revascularização justificada pela clínica), mas a trombose definitiva aguda (menos de 24 horas após a angioplastia) foi de 1,2% para o Synergy vs. 0,3% para o Xience (p = 0,032).

Esta significativa diferença aguda foi se equiparando com o tempo. De fato, após um ano a diferença tinha desaparecido por completo.

A sugestão para os pacientes que recebem o Synergy depois de ver estes dados seria um obsessivo regime antitrombótico e deixar um resultado perfeito na angioplastia.


Leia também: ESC 2019 | Pure: o índice de massa corporal não tem boa correlação com os eventos cardiovasculares.


Contudo, é necessário cautela ao decodificar esta informação, já que se trata de um registro de um único centro (duas coisas óbvias: não é randomizado e não conta com suficientes pacientes para avaliar diferenças em um evento tão pouco frequente como é a trombose aguda). Estudos com o Synergy como o EVOLVE II e o BIO-RESORT não mostraram diferenças em termos de trombose aguda.

Também chama a atenção o fato de outros dispositivos com struts finos ou ultrafinos tipicamente mostrarem uma redução da trombose em comparação com os stents com struts mais grossos como o Xience.

Enquanto os estudos clínicos que testaram o Synergy não mostraram um maior risco de trombose, uma análise da FDA de 2017 (FDA’s Manufacturer and User Facility Device Experience) sugeriu dito risco, particularmente nas primeiras 24 horas. Também o estudo TIDE-ACS, que foi apresentado no ESC de 2017 mas que não foi publicado até o dia de hoje, mostrou a mesma tendência.

Com relação ao presente estudo (os autores utilizaram a base de dados de angioplastia de Bern), foram incluídos 1.343 pacientes consecutivos do mencionado centro universitário tratados com o Synergy vs. 2.527 tratados com o Xience. Utilizou-se o propensity score para emparelhar as diferenças entre as duas populações, deixando 1.041 pacientes em cada ramo.


Leia também: ESC 2019 | HOPE 4: derrubar barreiras para tratar fatores de risco em países em desenvolvimento.


Os pacientes deste registro são muito diferentes dos pacientes incluídos em estudos clínicos, por exemplo, no EVOLVE II. Quando foram excluídos deste registro os pacientes de alto risco e mantidos somente os de risco baixo ou moderado (constituindo uma população muito mais parecida à do EVOLVE II), já não se observaram diferenças em termos de trombose aguda.

Esta população de alto risco foi a que conduziu a diferença no registro (1,9% para o Synergy vs. 0,5% para o Xience).

O potencial mecanismo deste maior risco de trombose no Synergy poderia estar relacionado com o fato de os struts ultrafinos do stent estarem cobertos com o polímero bioabsorvível somente na superfície abluminal do dispositivo. Este desenho tem a finalidade de otimizar a cicatrização, mas deixa uma superfície metálica em contato com o sangue muito parecida à de um stent convencional (bare metal). Estudos ao vivo mostraram que a superfície metálica é mais trombogênica que as cobertas com polímeros biocompatíveis.

Por enquanto nada é definitivo e teremos que esperar dados mais concludentes.

Título original: Everolimus-eluting biodegradable polymer versus everolimus-eluting durable polymer stent for coronary revascularization in routine clinical practice.

Referência: Zanchin C et al. J Am Coll Cardiol Intv. 2019; Epub ahead of print.


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