Vantagens teóricas mas traduzidas em piores resultados clínicos: Synergy vs. Xience

Dados recentes de um registro do “mundo real” que serão proximamente publicados no J Am Coll Cardiol Intv sugerem que o stent Synergy (stent com struts finos, eluidor de everolimus e polímero biodegradável) se associaria a um maior risco de trombose aguda em comparação com o clássico Xience (com struts mais grossos, eluidor de everolimus e polímero permanente).

synergy vs XIENCE

No seguimento de 12 meses não se observaram diferenças em termos de eventos clínicos entre ambos os stents (morte cardíaca, infarto relacionado com o vaso, revascularização justificada pela clínica), mas a trombose definitiva aguda (menos de 24 horas após a angioplastia) foi de 1,2% para o Synergy vs. 0,3% para o Xience (p = 0,032).

Esta significativa diferença aguda foi se equiparando com o tempo. De fato, após um ano a diferença tinha desaparecido por completo.

A sugestão para os pacientes que recebem o Synergy depois de ver estes dados seria um obsessivo regime antitrombótico e deixar um resultado perfeito na angioplastia.


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Contudo, é necessário cautela ao decodificar esta informação, já que se trata de um registro de um único centro (duas coisas óbvias: não é randomizado e não conta com suficientes pacientes para avaliar diferenças em um evento tão pouco frequente como é a trombose aguda). Estudos com o Synergy como o EVOLVE II e o BIO-RESORT não mostraram diferenças em termos de trombose aguda.

Também chama a atenção o fato de outros dispositivos com struts finos ou ultrafinos tipicamente mostrarem uma redução da trombose em comparação com os stents com struts mais grossos como o Xience.

Enquanto os estudos clínicos que testaram o Synergy não mostraram um maior risco de trombose, uma análise da FDA de 2017 (FDA’s Manufacturer and User Facility Device Experience) sugeriu dito risco, particularmente nas primeiras 24 horas. Também o estudo TIDE-ACS, que foi apresentado no ESC de 2017 mas que não foi publicado até o dia de hoje, mostrou a mesma tendência.

Com relação ao presente estudo (os autores utilizaram a base de dados de angioplastia de Bern), foram incluídos 1.343 pacientes consecutivos do mencionado centro universitário tratados com o Synergy vs. 2.527 tratados com o Xience. Utilizou-se o propensity score para emparelhar as diferenças entre as duas populações, deixando 1.041 pacientes em cada ramo.


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Os pacientes deste registro são muito diferentes dos pacientes incluídos em estudos clínicos, por exemplo, no EVOLVE II. Quando foram excluídos deste registro os pacientes de alto risco e mantidos somente os de risco baixo ou moderado (constituindo uma população muito mais parecida à do EVOLVE II), já não se observaram diferenças em termos de trombose aguda.

Esta população de alto risco foi a que conduziu a diferença no registro (1,9% para o Synergy vs. 0,5% para o Xience).

O potencial mecanismo deste maior risco de trombose no Synergy poderia estar relacionado com o fato de os struts ultrafinos do stent estarem cobertos com o polímero bioabsorvível somente na superfície abluminal do dispositivo. Este desenho tem a finalidade de otimizar a cicatrização, mas deixa uma superfície metálica em contato com o sangue muito parecida à de um stent convencional (bare metal). Estudos ao vivo mostraram que a superfície metálica é mais trombogênica que as cobertas com polímeros biocompatíveis.

Por enquanto nada é definitivo e teremos que esperar dados mais concludentes.

Título original: Everolimus-eluting biodegradable polymer versus everolimus-eluting durable polymer stent for coronary revascularization in routine clinical practice.

Referência: Zanchin C et al. J Am Coll Cardiol Intv. 2019; Epub ahead of print.


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