O tratamento médico é mais efetivo que a angioplastia em diminuir a mortalidade por sangramento?

Os sangramentos após a alta em pacientes admitidos por uma síndrome coronariana aguda se associam com um incremento da mortalidade por qualquer causa. No entanto, isso é verdadeiro tanto para pacientes submetidos a angioplastia quanto para aqueles que são manejados com tratamento médico. 

¿El tratamiento médico disminuye la mortalidad por sangrado vs la angioplastia?

Os dados aqui apresentados são interessantes, já que é frequente que um alto risco de sangramento incline a balança para o lado do tratamento médico. 

A especulação se apoia no fato de que caso a estratégia seja a angioplastia, o sangramento será mais grave, já que o paciente terá recebido antiagregante e, além disso, se for necessário suspendê-la, o risco de trombose também passa a ser alto. 

Agora, para além do anteriormente dito, o prognóstico desta população única de pacientes com síndromes coronarianas agudas que recebem tratamento médico e posteriormente apresentam sangramento era quase desconhecido. 

O objetivo deste trabalho recentemente publicado no J Am Coll Cardiol foi analisar a associação entre o sangramento após a alta e a mortalidade de acordo com a estratégia na internação índice (angioplastia ou tratamento médico). Concomitantemente foi contrastada a complicação do sangramento vs. infarto. 


Leia também: EuroPCR 2020 | Revascularização vs. tratamento médico inicial em pacientes crônicos.


As bases de dados de 4 grandes estudos (APPRAISE-2, PLATO, TRACER e TRILOGY ACS) foram analisadas para determinar a associação entre o sangramento após a alta (7 dias após a síndrome coronariana aguda) e a mortalidade. 

Do total de 45 011 pacientes, 1133 apresentaram sangramento e 2149 faleceram durante o seguimento. 

A mortalidade se elevou significativamente dentro dos 30 dias do sangramento (em até 15 vezes) mas também entre os 30 dias e um ano (quase o triplo) da complicação. Dita associação entre mortalidade e sangramento foi consistente tanto em pacientes que foram submetidos a angioplastia quanto naqueles que receberam tratamento médico (p para a interação = 0,240).


Leia também: ACC 2020 Virtual | ISCHEMIA-CKD: Estratégia invasiva vs. tratamento médico em pacientes de maior risco.


A associação entre sangramento e mortalidade também foi similar à associação entre infarto e mortalidade em ambas as estratégias de tratamento (p para interação = 0,696). 

Conclusão

O sangramento após a alta em pacientes admitidos por uma síndrome coronariana aguda se associa com um incremento da mortalidade por qualquer causa e o impacto no prognóstico é similar para ambas as estratégias de tratamento (angioplastia vs. tratamento médico). O impacto no prognóstico de um infarto recorrente é similar ao do sangramento. 

Título original: Post-Discharge Bleeding and Mortality Following Acute Coronary Syndromes With or Without PCI.

Referência: Guillaume Marquis-Gravel et al. J Am Coll Cardiol 2020;76:162–71. https://doi.org/10.1016/j.jacc.2020.05.031.


Subscreva-se a nossa newsletter semanal

Receba resumos com os últimos artigos científicos

Sua opinião nos interessa. Pode deixar abaixo seu comentário, reflexão, pergunta ou o que desejar. Será mais que bem-vindo.

Mais artigos deste autor

Rupturas de placa en artérias não culpadas: seguimento com imagens intravasculares

A ruptura de placa continua sendo um dos mecanismos fisiopatológicos mais importantes nas síndromes coronarianas agudas. No entanto, nem todas as rupturas se manifestam...

OCT e placas de alto risco: um preditor fundamental de eventos recorrentes após um infarto do miocárdio

Após um infarto do miocárdio (IM), as lesões não culpadas costumam ser diferidas quando não apresentam limitação significativa do fluxo coronariano (FFR negativo). No...

Ticagrelor vs. clopidogrel em pacientes com SCA e ACOD após ICP: mais sangramento sem benefício isquêmico?

Em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA) que requerem anticoagulação oral direta (ACOD) e são submetidos a uma intervenção coronariana percutânea (ICP), os guias...

EuroPCR 2026 | É seguro suspender a aspirina a um mês em pacientes com infarto tratados com PCI? Análise do TARGET-FIRST

Este é um resumo da análise pós-hoc do estudo TARGET-FIRST, apresentado pelo Dr. Giuseppe Tarantini no EuroPCR 2026 sobre a interrupção precoce da aspirina...

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Artigos Relacionados

Congressos SOLACIspot_img

Artigos Recentes

Obstrução coronariana no TAVI: um novo índice volumétrico a ser considerado

A obstrução coronariana durante o TAVI é uma complicação pouco frequente, mas potencialmente devastadora, especialmente em procedimentos valve-in-valve, em anatomias com seios de Valsalva...

Espaço do Fellow – Caso 2: Infarto Agudo do Miocárdio por Oclusão Simultânea de Duas Artérias Coronárias

Compartilhe sua experiência. Aprenda com especialistas. Cresça como intervencionista. Chega uma nova edição do Cantinho do Fellow, um espaço de intercâmbio acadêmico criado para que...

EARLY TAVR: impacto da idade nos resultados do TAVI precoce em pacientes assintomáticos

A estenose aórtica severa assintomática representa um desafio clínico cada vez mais frequente. Embora as diretrizes recomendem intervir quando aparecem sintomas ou deterioração da...